Como funciona a tradição asiática que escolheu uma menina de 2 anos como ‘deusa viva’

Aryatara Shakya assume o posto de Kumari durante o festival Dashain; tradição secular mistura devoção, isolamento e desafios para a infância

Aos 2 anos e 8 meses, Aryatara Shakya é carregada até o palácio-templo de Katmandu para ser entronizada como a nova Kumari, a "deusa viva" do Nepal

Aos 2 anos e 8 meses, Aryatara Shakya é carregada até o palácio-templo de Katmandu para ser entronizada como a nova Kumari, a "deusa viva" do Nepal | Reprodução Youtube/ Travel Guide Nepal

Aos 2 anos e 8 meses, Aryatara Shakya foi escolhida como a nova Kumari, a “deusa virgem” venerada por hindus e budistas, em Katmandu, capital do Nepal, na última terça-feira (30).

A entronização ocorreu no oitavo dia do festival hindu Dashain, o mais importante do país, que celebra a vitória do bem sobre o mal ao longo de 15 dias. Aryatara foi carregada pelo pai e familiares de um beco até o palácio-templo de Kumari Ghar, onde viverá pelos próximos anos.

Nas ruas, amigos e devotos a receberam com flores, dinheiro e o gesto tradicional de tocar a testa em seus pés, sinal máximo de reverência no hinduísmo nepalês.

A tradição atravessa séculos e está enraizada na comunidade Newar, no Vale de Katmandu. Segundo a agência Associated Press, as meninas são escolhidas entre 2 e 4 anos e precisam atender a requisitos rigorosos: pele, olhos, dentes e cabelos sem imperfeições, ausência de medo do escuro e o uso constante da cor vermelha.

“Ontem ela era apenas minha filha, mas hoje é uma deusa”, disse o pai, Ananta Shakya, à AP. “Durante a gravidez, minha esposa sonhou que ela era uma deusa, e sabíamos que seria alguém muito especial.”

Veja como foi a coroação, pelo jornal Indiano ‘ANI News’: 

A coroação também encerrou o ciclo da Kumari anterior, Trishna Shakya, escolhida em 2017 aos 3 anos. Aos 11, ela deixa o templo e retorna à vida comum, como prevê a tradição ao chegar à puberdade.

No mês passado, Trishna participou de sua última procissão no festival Indra Jatra, conduzida em uma carruagem puxada por devotos. Nesta terça-feira, saiu discretamente do palácio-templo pela entrada dos fundos, carregada pela família e apoiadores.

Ser uma Kumari significa viver entre devoção e isolamento. As meninas permanecem reclusas no palácio, saindo apenas em ocasiões especiais, como procissões anuais, sempre vestidas de vermelho, com cabelos presos e o “terceiro olho” pintado na testa. Além de abençoar fiéis, Aryatara terá também a missão de conceder bênçãos a autoridades, como fará nesta quinta-feira (2), ao presidente do Nepal.

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A vida após o trono, porém, traz desafios. Muitas ex-Kumaris enfrentam dificuldades de adaptação ao voltar à rotina, precisam reaprender tarefas cotidianas, retomar os estudos e ainda lidar com o estigma popular de que seus futuros maridos morreriam jovens, crença que leva várias a permanecer solteiras.

Nos últimos anos, a tradição passou por mudanças. Hoje, as Kumaris têm acesso a televisão, aulas particulares dentro do templo e recebem uma pensão mensal de cerca de US$ 110 (aproximadamente R$ 586), valor ligeiramente superior ao salário mínimo do país.