Do outro lado da cena: um mergulho nas engrenagens do Teat(r)o Oficina

Reportagem do Diário visitou os bastidores daquele que é um dos mais consagrados grupos de teatro do Brasil

Um imenso quebra-cabeça, composto por pedaços de cenários, montagem de estruturas, preparação de figurino e ajustes de som e luz: essa foi a visão com a qual a reportagem do Diário se deparou na última quarta-feira, durante uma visita aos bastidores daquele que é um dos mais consagrados grupos de teatro do Brasil.

Serão, no total, mais de seis horas de espetáculo nas duas apresentações de ‘O Rei da Vela’, clássico do Teat(r)o Oficina de 1967 e que se apresenta hoje e amanhã no palco do Sesc Santos. No entanto, para que a magia do teatro possa acontecer, o trabalho de dezenas de profissionais da área técnica começa muito antes: aqui no litoral, a equipe composta por mais de 20 pessoas chegou na segunda-feira e até o início da peça hoje, muita coisa ainda precisa ser alinhada.

De acordo com a maquinista e diretora de cena, Elisete Jeremias, geralmente em uma semana a equipe viaja, monta, ensaia, estreia, desmonta e segue viagem: ufa! Uma rotina puxada, mas que vale a pena.

A primeira vista, o que mais chama a atenção é a magnitude do cenário: enormes peças de madeira articuladas, um boneco com mais de 6 metros de altura e um balanço ornamentado com uma cobra e folhagens, cujo significado cênico descobriremos mais tarde. No palco, o destaque é o fato de todos os cenários dos três atos da peça estarem em evidência (o primeiro momento é circense, o segundo teatro de revista e o terceiro ópera), mesmo que a montagem tenha sido projetada desde o início para o palco italiano.

De acordo com a arquiteta cênica Marília Gallmeister, que trabalha desde 2011 no Oficina, esse é um dos trunfos da peça. “O Rei da Vela foi projetado para o palco italiano, mas apresenta um palco sem vestimentas, sem cortinas, com tudo ali, aparente. A beleza do cenário é chocar o público: a operação está visível o tempo todo, com a entrada e a saída dos contrarregras, revelando como essa máquina funciona”, pontua.

Pensar a montagem do cenário foi um desafio para ela e sua dupla, a arquiteta Carila Matzenbacher, uma vez que ele foi recriado a partir de desenhos e maquetes do cenário original, datado da década de 60. “Nos apoiamos também nas fotografias e no filme ‘O Rei da Vela’, ambos em preto e branco, para recriar da forma mais fiel possível esse cenário complexo. Já em 1967 ele foi pensado para o palco italiano desafiando seus limites por se expandir para fora da caixa e por unir vários elementos de estéticas distintas”, destaca Carila.

Cenário planejado, construído e montado: agora é preciso que ele seja iluminado para revelar todas as sua nuances e características para o público. E um coro de iluminadores está lá no meio da plateia, operando o potente sistema de luz. Há cinco anos no Oficina, Luana Della Crist é uma dessas pessoas. “A gente assina a iluminação, mas na verdade em uma companhia de teatro todo mundo faz um pouquinho de tudo”, diz aos risos.

Assinando a operação da luz do espetáculo, ela conta que entrou no Oficina para operar o canhão seguidor, função hoje desempenhada pelo jovem Vinicius Tabarini, de 23 anos. “Posso dizer que pouco assisto ao espetáculo, pois meu trabalho é não tirar o olho do ator”, pontua.

E se a luz faz toda a diferença para o cenário, o sistema de som também é essencial para a montagem como um todo. E nestas funções estão Clevinho Ferreira e a carioca Camila Fonseca, que chegou ao Oficina a partir do Coletivo ‘Mulheres no Áudio’, do qual faz parte no Rio de Janeiro. A presença feminina em todo o processo de montagem técnica é uma das características mais fortes da Companhia.

Uma das mais antigas na função é Cida Melo, a mulher que ‘há 18 anos não permite que uma agulha esteja fora do lugar na hora da apresentação’, conforme destaca o diretor de cena Otto Barros.

A menina que chegou ao teatro para cobrir férias de uma funcionária que ‘nunca mais apareceu’, conta que organiza mais de três mil figurinos na sede do grupo no Bixiga, em São Paulo, e também nas apresentações pelo Brasil. “E se por acaso alguém bagunçar e perder algum intem eu corro para dar conta de colocar outro em cena. Mas se for de propósito eu já logo dou uns cascudos em quem está aprontando para manter a ordem na Companhia”, fala demonstrando uma braveza que parece passar longe da timidez que a acompanha.

Sintonia

Há exatos 20 anos no Oficina, a diretora Elisete conta que já perdeu as contas de quantas vivências marcantes carrega na bagagem e quantos profissionais talentosos já conheceu e trouxe para trabalhar em parceria nas montagens do grupo.

“Tenho muito orgulho de ter formado gente que hoje trabalha em vários Estados do Brasil, no Vietnã e em Paris. Pelo teatro eu viajei para muitos lugares e conheci muita gente. Em cada cidade a gente faz questão de conhecer os grupos locais e também convidar estudantes de técnicas de palco para conhecer a nossa estrutura. O legal é que muitos seguem viagem conosco quando abre uma oportunidade e a gente vê que eles têm um brilho diferente nos olhos”, conta.

Um deles foi Otto Barros, de 28 anos, que hoje assume a direção de cena ao lado de Elisete. Foi há oito anos, no Rio de Janeiro, que o então ator recebeu o convite para integrar a trupe técnica. “Hoje meu trabalho é ter uma visão técnica de toda a criação”, conta. Para ele, a montagem de ‘O Rei da Vela’ foi complexa, uma vez que teve a pretensão de fazer uma réplica de algo que aconteceu há 50 anos e refletia o contexto de uma época que – ao que tudo indica – está ressurgindo.

“Falar o que o espetáculo fala e poder fazer isso nesse tempo é, ao mesmo tempo, um presente e uma decadência. É uma peça forte e fácil de ser entendida: a gente ri de uma cena no palco e se entristece ao notar que ela é real e está acontecendo aqui e agora”, pondera.

Direção, montagem, cenário, camarim, iluminação, som e atores em cena: quando há uma sincronia forte entre todas as áreas de montagem, a arte acontece de forma natural. E entra em cena de forma incisiva, garantindo que a história não se fará senão pela Revolução: esta é a lição implícita em ‘O Rei da Vela’.