Elas estão na direção de novo app antiassédio

Com 2,4 mil usuárias, transporte feminino inicia na Baixada.

Os vidros limitam o choro pueril em meio ao trânsito santista. No banco de trás, a mãe se ajeita para alimentar a criança, sem receio de comentários ou de ser espiada pelo retrovisor por quem a conheceu há poucos minutos. Afinal, o volante está sob mãos femininas. “A passageira se sentiu mais segura”.

A afirmação é de Simone Gomes, uma das dezenas de motoristas do Daisy Drivers (daisydrivers.com.br), aplicativo de transportes exclusivo entre mulheres: condutoras e usuárias. O serviço iniciou em maio e reúne mais de 2,4 mil passageiras da Baixada Santista.

No automóvel prateado de Simone, há carona para a advogada que evita concorrer por vagas matinais de estacionamento. Para a doméstica após uma tarde exaustiva. Até para um trio de universitárias. “Um diferencial é ser possível programar a viagem pelo celular. Já vi mãe satisfeita quando agendou para buscar a menina de madrugada após uma festa de debutante”.

INDEPENDÊNCIA

Por dia, ela atende de 20 a 25 viagens – parte delas complementada por outros aplicativos. Devido à crise econômica, fechou uma empresa e há dois anos trabalha no atual ramo. Mas Simone tem um carinho pelo Daisy Drivers. Foi a pioneira a apresentar a iniciativa em um grupo de WhatsApp de 90 mulheres motoristas. Para algumas mulheres que estava deprimidas ou desempregadas, o aplicativo se tornou numa alternativa de fonte de renda.

“Fazemos o Daisy com alegria, porque atende a necessidade das usuárias. Há quem têm medo de ir no carro com homens, por experiência de assédios ou conhecer quem já vivenciou. Conosco, têm mais confiança”. Nas redes sociais, o respaldo das clientes, como a publicitária Marília Ribeiro, que comenta: “Não vejo a hora de usar o aplicativo para não me sentir mais vigiada. É muito melhor estar entre amigas”.

SEM FIU-FIU

É quase unânime que mulheres se sentem mais seguras com outra dirigindo, segundo a relações-públicas, Marina Favero, de 23 anos. Esta é uma das conclusões de seu TCC realizado em 2018 com Raíssa Mendes e Sarah Patero na Universidade Católica de Santos.

O trio realizou uma pesquisa qualitativa que aborda dados sobre aplicativos de transportes para mulheres e o assédio. Entre as 384 entrevistadas de Santos, “concluímos que 95% já usaram aplicativos de transportes e muitas já sofreram assédio verbal ou sexual dentro do carro”.

Parte da pesquisa focou sobre a importância do FemiTáxi, que à época operava na cidade. “Assim como serviços similares, surge como uma forma mais segura e confiável para a mulher, tanto passageira como motorista, que também passaram por situações semelhantes com passageiros homens. Além de ser uma opção para mulheres obterem renda, já que há uma alta relação de desemprego no momento”.

PELO BRASIL

O transporte por e para mulheres não é exclusivo da região. O FemiTáxi atua nas capitais do Sudeste, Campinas e Goiânia. Além de São Paulo, a Lady Driver atende Guarulhos e a Venuxx em Porto Alegre. Completam a lista Madame Driver (Manaus), Driver Girls (São Carlos) e Gurias na Direção (Rio Grande do Sul).

Para a diretoria do Daisy Drivers, esse modelo de serviço não pode ser considerado uma segregação de gênero. “São necessidades diferentes das dos homens e que, agora, emergem sem medo, sem culpa e com naturalidade”, em nota, exemplificando a confiança que uma mãe teve de amamentar o bebê em uma corrida. “Nossa posição não tem a ver só com transporte, mas oferecer segurança para mulheres que exercem qualquer atividade externa”.

A empresa hoje, tem mais de 110 condutoras cadastradas aguardando a ativação. No futuro, espera abranger o ABC Paulista.