Fogo e destruição no Caminho São Sebastião

Maior incêndio em palafitas de Santos dura quase 12 horas, queima 200 barracos e deixa mais de 300 famílias desabrigadas no Rádio Clube; causas serão apuradas

Dezenas de pessoas perambulavam pelas vielas, tentando resgatar pertences que por ventura teriam resistido ao fogo. Mas a busca era infrutífera: no Caminho São Sebastião – em uma área onde existiam aproximadamente 200 palafitas – sobraram apenas cinzas, fumaça, destroços e animais mortos pelas chamas. No total, 318 famílias já realizaram cadastro emergencial na Secretaria de Assistência Social de Santos (Seas), vítimas do maior incêndio em palafitas já registrado na cidade.

Com parte do corpo enfaixada e bolhas evidentes nas costas, cabeça e pés, Emerson Duarte tentava resgatar algo no local. Ele estava em casa quando uma vizinha passou correndo pela viela avisando do começo do incêndio, por volta das 21h de segunda-feira (2). “Peguei minha filha de 21 dias e saí de casa junto com os outros familiares, mas voltei para tentar ajudar outras pessoas. Conseguimos tirar bastante gente dos barracos mais afastados, mas na última vez que voltei o fogo me pegou e fiquei muito queimado”, destaca.

Os moradores ouvidos pela Reportagem afirmaram que o incêndio que destruiu moradias irregulares em uma área de cerca de 6 mil metros quadrados teria começado em um barraco, após uma panela de pressão incendiar-se no fogão. A Prefeitura e o Corpo de Bombeiros ainda apuram as causas do incêndio.

Em função dos ventos, as chamas percorreram boa parte da comunidade, se deslocando do Caminho São Sebastião para o Caminho São José. De acordo com a Defesa Civil, três frentes foram montadas e 27 viaturas utilizadas – dentre unidades do Corpo de Bombeiros, Guarda Municipal, Guarda Portuária, CET, Sabesp, Terracom e da Defesa Civil – para acabar  com as chamas, que foram extintas oficialmente apenas às 8h20 de ontem.

Com o olhar distante, o jovem Kaique Alexandre, de 22 anos, olhava o local onde possivelmente começou a tragédia. “Fiquei só com a roupa do corpo. Estava em casa quando o Corpo de Bombeiros passou falando para a gente correr, pois havia o risco das chamas chegarem até onde estávamos. Acho que ninguém acreditou de imediato, pois parecia que era longe demais, sabe? Mas quando menos esperamos o fogo chegou. Corri com meu cachorro e no meio do caminho consegui salvar o cachorro de uma vizinha. E foi só isso. Não deu para pegar mais nada, pois além do fogo ter chegado rápido a viela é estreita”, disse.

De acordo com Maxwell Santana, morador há 28 anos do bairro, o número de moradias atingidas é superior ao estipulado pela Administração. “Foram pelo menos 250. O fogo pegou do beco 1 até o beco 41. Cada beco tinha muitas moradias. A Prefeitura fez o cadastro de quem foi até lá e nós, os moradores mais antigos, estamos fazendo o nosso cadastro também, para comparar e garantir que todos os moradores sejam atendidos”, apontou.
Foram registrados 10 atendimentos médicos, todos sem gravidade.

Solidariedade

Em meio ao horror das chamas, atos isolados de solidariedade foram lembrados pelos moradores. Na noite do incêndio, uma pizzaria e um restaurante local forneceram alimentação para os atingidos.

Nesta terça-feira, moradores acumularam doações de roupas, itens de higiene e calçados no interior da igreja Nova Vida no Brasil. No mesmo local, voluntários da própria comunidade prepararam, com o auxílio de doações de comércios locais, um almoço para quem estava nas imediações da tragédia.

“Algumas pessoas pularam na água e escaparam pelo município de São Vicente, pois na região há um braço estreito de rio com pouca profundidade. O que auxiliou muito o trabalho dos profissionais que lutaram contra as chamas foi a solidariedade dos próprios moradores, que apoiaram os bombeiros e ajudaram no combate na região, que tem acesso precário”, disse Daniel Onias, chefe da Defesa Civil de Santos.

Seu Sebastião voltou ao local onde passou mais de 20 anos da vida. Com os olhos marejados, o cozinheiro afirma que ajudou na construção de muitos barracos do Caminho São Sebastião. “O último eu ergui há uns seis meses. Quando a gente mora aqui a gente sabe que está sujeito a isso. Mas ninguém está aqui porque quer, né?”, desabafa. Ele conta que para construir seu barraco, erguido sobre pilares de concreto, bateu o cimento na área externa das vielas e foi levando de pouco em pouco para a área. A intenção era deixar a casa mais segura. “E ficou. A única coisa que sobrou de pé foram os pilares. Quem sabe eu consiga reerguer algo ali?”, disse.

Paulo Alexandre afirma que fará acompanhamento às vítimas

Em coletiva realizada na Regional da Zona Noroeste na manhã de ontem, o prefeito Paulo Alexandre Barbosa afirmou que dará todo o apoio às vítimas do incêndio.

“Nossas equipes do plano de emergência para incidentes desse tipo foram acionadas e se colocaram à disposição. Poucas horas após o incêndio, a Administração abriu a UME Pedro Crescenti para fazer o cadastro das famílias e, consequentemente, garantir os serviços necessários. Após o término do trabalho de rescaldo, caminhões da Prefeitura trabalham também na limpeza da área e na fiscalização para que a região não seja invadida novamente”, afirmou o chefe do Executivo.

Ainda ontem, as famílias cadastradas já puderam retirar a cesta básica no Centro de Convivência São José (Rua Tenente Durval do Amaral, 366).  As pessoas que não se cadastraram devem procurar o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) Rádio Clube. O CRAS fica na Avenida Brigadeiro Faria Lima, 677. Uma equipe do Poupatempo também irá na região nos próximos dias para providenciar a segunda via de documentos.

De acordo com Rosana Russo, secretária de Assistência Social, 18 pessoas foram direcionadas para abrigos mantidos pela Administração. Questionada sobre o fechamento e retirada do mobiliário do Abrigo para situações de emergência, localizado na Rua General Câmara, a secretária afirmou que o local seria reequipado em seis horas para a possível estadia de desabrigados.

Equipes da Prefeitura foram, de fato, flagradas pelo Diário remontando o espaço, que passa a maior parte do ano de portas fechadas e está alugado pela Administração desde maio de 2015, consumindo um montante mensal de R$ 4.038,63 para os cofres públicos.

Conjunto habitacional será entregue em 2018

A construção do Conjunto Tancredo Neves 3, que prevê 1.120 moradias destinadas para os moradores da Zona Noroeste, dentro do Programa Santos Novos Tempos, deverá ser entregue apenas no final de 2018.

A construção do conjunto ainda está na fase da fundação em uma área de 35 mil m² da Cohab (Companhia de Habitação da Baixada Santista), na Cidade Náutica (São Vicente). As obras estão a cargo do consórcio Terracom/Mendes Júnior, com investimento de R$ 86,5 milhões entre recursos da administração municipal (R$ 15,3 milhões) e dos governos estadual (R$ 33,6 milhões) e federal (R$ 35,2 milhões).

As unidades serão destinadas a moradores de palafitas no Dique da Vila Gilda, Butantã, Caminho da União e São Manoel. De acordo com os dados do último Censo realizado pelo IBGE, em 2010, cerca de 40 mil pessoas moram em aglomerados subnormais – áreas não regularizadas que contam com pouca ou quase nenhuma estrutura – em Santos, cidade de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) considerado alto.

Os outros conjuntos habitacionais já possuem demanda específica. O Conjunto Habitacional Santos R contemplará as famílias das áreas de risco do Morro da Nova Cintra. O Santos T é direcionado para famílias da Vila Santa Casa. Santos O para as famílias do Jardim São Manoel e o Conjunto Caneleira V , que também possui demanda específica.