Histórias de Itanhaém: Caiçara relembra o modo de vida nos anos 1950

A afirmação é do engenheiro civil e caiçara Manoel Martins Poitena, de 79 anos, que relembra o modo de vida da população de Itanhaém, entre as décadas de 1950 e 1960

Manoel e sua irmã Marilene mostram o quadro com o seu pai Zeca Poitena e a rede de pesca

Manoel e sua irmã Marilene mostram o quadro com o seu pai Zeca Poitena e a rede de pesca | Nayara Martins/DL

O engenheiro civil Manoel Martins Poitena, de 79 anos, morador em Itanhaém, relembra como era o modo de vida da população caiçara entre as décadas de 1950 e 60, época em que a maior parte dos moradores vivia do comércio e da pesca.

Apesar de ter nascido em Santos, o caiçara Mané Poitena, passou a infância e sua juventude na cidade de Itanhaém, onde mora até hoje.

Na opinião de Mané, os principais fatores para o desenvolvimento econômico de Itanhaém foram a Estrada de Ferro, a produção de bananas, a pesca, a igreja católica e a construção civil.

“Itanhaém era uma cidade muito pacata, as famílias tinham suas casas cercadas com madeira e nos quintais tinham galinhas e árvores frutíferas. As famílias eram bastante simples e se visitavam. As crianças brincavam nas ruas e praças até a noite”, conta.

Os principais bairros eram a Vila, onde hoje é o centro; a Vila Operária, hoje, a Vila São Paulo, e o bairro do Poço, hoje, o Belas Artes. O bairro mais distante era o Suarão, mas todos levavam uma vida simples. As famílias de maior poder aquisitivo moravam na Vila.

“A única escola que existia era a Benedito Calixto que oferecia até o primário. Ao se formar, para cursar o ginásio ou colegial, o aluno tinha que ir estudar em Pedro de Toledo, onde havia o ginásio. Ou ainda em São Vicente ou Santos”, explica.

O transporte de pessoas também era feito de ônibus pela praia, com o trajeto Itanhaém-Santos (ida e volta). “Muitas vezes, a maré subia e avançava na areia e, assim, o ônibus não conseguia passar”.  

A rodovia Padre Manoel da Nóbrega foi inaugurada apenas no ano de 1961. 

Relembre a história encantadora da cidade de Itanhaém.

Estrada de ferro

A partir de 1913, a empresa inglesa Southern São Paulo Railway iniciou o tráfego da linha Santos a Itanhaém, contribuindo para o desenvolvimento da região.  

A partir de 1927, a linha de trem passou a ser administrada pela Estrada de Ferro Sorocabana que fazia o trajeto Santos-Juquiá. 

Havia ainda o ramal Mayrinq-Santos, trem que vinha de São Paulo e parava em Samaritá. O trem que vinha de Santos também passava em Samaritá e pegava os passageiros para Itanhaém.

A Estação Ferroviária era uma atração aos moradores da Cidade que iam até o local para ver o trem chegar. 

“O trem trazia jornais de Santos, pois a Cidade não tinha bancas. Helvécio de Souza ia pegar os jornais e os vendia em um espaço na janela de sua casa, na rua Cunha Moreira, no centro”.     

Banana

Outro grande fator de desenvolvimento da região foi o cultivo e o comércio de banana, entre as décadas de 1940 e 1970.

“Itanhaém foi o maior produtor de banana da região. Havia sítios de bananicultores na região do Rio Acima e a banana era transportada por chatas (barcos), pelos rios Branco e Preto. As chatas paravam nos portos do Baixio e do Guaraú – onde tinha um ramal ferroviário para levar aos vagões do trem que ia para Santos. As bananas eram levadas ao Porto de Santos e exportadas para outros países”, destaca. 

Além da venda das bananas, Itanhaém era bastante conhecida pela fábrica de doces de banana, fundada pela família de Luíza Forssell, na década de 30. O comércio existe até hoje ao lado da Estação Ferroviária.    

“Itanhaém recebia muitos empresários e veranistas que tinham casa na Cidade. Eles gostavam da tranquilidade, das ruas de terra, das praias preservadas e de passear pelos rios. Passavam até três meses na cidade em férias. A energia elétrica funcionava somente até às 22 horas”, recorda. 

Pesca

A maior parte das famílias da Cidade também vivia da pesca artesanal. 

O pai de Mané, José Rodrigues Poitena, mais conhecido como Zeca Poitena, foi um dos pioneiros na pesca em Itanhaém. De família caiçara, ele aprendeu a pescar com o seu pai ainda na infância.

Ele tinha um barco chamado “Cambeva”, movido a remo. Ficava guardado na praia do centro em um barracão, junto com as redes de pesca.

Zeca Poitena e mais cinco pescadores saíam para pescar no barco a remo. O barco saía com uma corda e as redes e seguia após a arrebentação das ondas.  

A pesca era de arrastão e, no final do dia, o pessoal puxava as cordas com as redes para ver o resultado da pescaria. 

“Muitos turistas gostavam de puxar as redes, na época havia peixes em abundância. Ao chegar na praia, os pescadores separavam os peixes, como robalo, pescada, camarão, caratinga e os vendiam na praia”, lembra. 

A pescaria também acontecia no rio Itanhaém, onde os pescadores usavam o cerco. As canoas e os remos eram fabricados por eles. Os peixes eram vendidos nos portos do Guaraú e Baixio.

Zeca Poitena foi morar em Santos e trabalhou no cais santista, entre os anos de 1955 e 1961, já que os filhos precisavam estudar. Ao voltar para Itanhaém, ele retornou à pesca, mas com a rede de espera, a tarrafa. 

Foi eleito vereador em duas ocasiões – entre 1952 a 1955 e no final da década de 1960. Na época vereador não recebia salário. Poitena casou-se duas vezes e teve seis filhos.

Festas religiosas

As festas religiosas ligadas à Igreja Católica eram tradicionais na Cidade, atraindo as famílias e romeiros de toda a região. Entre elas, a Festa do Divino, a da Padroeira Nossa Senhora da Conceição e o Reisado.

Marilene Martins Poitena, de 81 anos, irmã de Mané, lembra que cantava na procissão da Sexta-feira Santa, na década de 60, pelas ruas do centro histórico.    

O carnaval de rua era bastante animado com o “Banho à Fantasia da Tia Nena”, tradicional na Cidade. Os foliões se vestiam com fantasias de papel crepom e desfilavam no centro. Ao final, todos entravam no rio, na Boca da Barra. 

Construção civil

Mais uma área que contribuiu para o crescimento foi a construção civil, com a vinda de empresários e turistas, gerando empregos e renda à população. 

“Muitos empreiteiros vieram para Itanhaém para construir as casas de veranistas. No início eram poucos os loteamentos, mas depois, surgiu o bairro Cibratel, onde houve o “boom” da construção civil com a vinda dos veranistas”, lembra.

As eleições também eram movimentadas, mas a apuração dos votos acontecia em Santos, pois a Cidade ainda não era Comarca, na década de 50. 

“Nossa vida era muito mais tranquila e não havia violência. Nós tínhamos uma vida mais feliz”, conclui Mané.