‘Meu sonho é ter um emprego formal’, diz Taiane Miyake

A coordenadora executiva da Comissão Municipal de Diversidade Sexual de Santos acredita que a cidade tem avançado nos direitos das pessoas LGBT

Trabalho formal. Este é o desejo de Taiane Miyake para travestis e transexuais de Santos. No Dia Internacional do Orgulho LGBT, comemorado hoje, a coordenadora executiva da Comissão Municipal de Diversidade Sexual de Santos acredita que a cidade tem avançado nos direitos das pessoas LGBT, mas ainda é preciso mais.

Mulher trans, Taiane se declara ativista desde que nasceu. “Você enfrenta uma barra dentro da sua casa e não é fácil quando não se enxerga no sexo de nascimento”, explica. “Com o decorrer do tempo você passa a ser militante, porque começa a ir atrás dos seus direitos. Você percebe que também tem direitos”, completa.

Santista, a coordenadora acompanha a luta LGBT na cidade há quase 25 anos. “Dados históricos mostram que, em 2001, Santos era a 3ª cidade mais homofóbica do Estado de São Paulo, ficando atrás apenas da capital e de Campinas. De lá para cá, avançamos bastante”, comenta.

Em 2012, o Dia Internacional de Combate a LGBTfobia, comemorado no dia 17 de maio, passou a fazer parte do calendário oficial de Santos, por um decreto municipal. No mesmo ano, foi instituída a Semana Municipal de Diversidade Sexual, que vai para sua 7ª edição.

No ano seguinte, foi criada a Comissão Municipal de Diversidade Sexual que, segundo Taiane, ainda este ano irá transitar para Conselho Municipal de Políticas LGBT.

Em 2015, foi sancionada uma lei municipal que dá o direito de travestis e transexuais a usarem o nome social nas repartições públicas. “Hoje, todas são respeitadas dentro dos espaços públicos neste sentido”, analisa. Para dar um atendimento melhor a estas pessoas, as secretarias municipais foram capacitadas por Taiane. Uma prova do avanço, é que de desde agosto de 2016, não há mais reclamações na ouvidoria de Santos de desrespeito ao nome social.

“Outro ganho é o Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais, que funciona desde 2015 no Hospital Guilherme Álvaro e atende as nove cidades da Baixada”.

No mesmo ano, foi criada uma Seção de Apoio a Diversidade Sexual, que fica no Departamento de Cidadania da Prefeitura e faz parte da pasta da Secretaria de Desenvolvimento Social.

Este ano, Santos terá a 1ª Parada de Orgulho LGBT, em 30 de setembro.

Segundo Taiane, outro avanço é que duas empresas de telemarketing de Santos empregam travestis e transexuais, além de uma rede de supermercados com uma política pró-lgbt.

Saúde

Além de coordenadora, Taiane é Agente de Prevenção Voluntária do projeto de prevenção de doenças infectocontagiosas. “Fazemos uma intervenção através da dispensação de gel lubrificante e preservativos. Esses insumos nos dão suporte para fazer um vínculo com as travestis e transexuais e descobrir suas necessidades”, esclarece.
Travestis e transexuais têm direito ao nome social no cartão SUS e os prontuários dos equipamentos de Saúde de Santos desses pacientes têm o campo para nome social em seu sistema.

Segurança

Graças ao cargo de Coordenadora, Taiane consegue um frequente diálogo com o Palácio da Polícia. “Sempre que acontece algo no Centro de Santos com travestis e transexuais, a polícia me chama. Em outros tempos essas mulheres viveram o caos, mas hoje isso não acontece”, reitera.

Sonhos

No último dia 19 de junho, a OMS deixou de considerar a transexualidade e a travestilidade como um transtorno mental. “Ainda estamos na classificação CID para que quem desejar possa obter ajuda médica. Mas sonhamos com a despatologização da doença com o amparo legal do SUS”, expõe.

Outro sonho é a criminalização da LGBTfobia. “A cada 26 horas uma pessoa LGBT é morta no Brasil. Somos o País que mais mata travestis e o que mais consome programas sexuais destas pessoas”.

Apesar dos avanços, Taiane espera por um movimento social político organizado em Santos. Hoje, ela é referência. “Me sinto sozinha nessa luta”, lamenta.

Na próxima comemoração do Dia Internacional do Orgulho LGBT, ou seja, no dia 28 de junho de 2019, Taiane sonha com mais travestis e transexuais em um trabalho formal.

“Eu percebo que as empresas de Santos não querem associar o estereótipo que representamos a sua empresa. Isso é um preconceito. Existem muitas travestis e transexuais qualificadas e que estão nas esquinas, mas não queriam. Estão porque não conseguiram terminar o estudo e foram colocadas para fora de casa muito cedo”, analisa.

Essa também é a história de Taiane. Colocada para fora de casa aos 19 anos, teve o sonho da universidade interrompido. Hoje, ela também está desempregada, já que todo seu trabalho é voluntário. Em 2019 ela espera me reencontrar e dizer: “Aconteceu aquilo que eu sonhava. Hoje eu trabalho em uma empresa formal”.