Nova moda nos relacionamentos: jovens apostam no “shreking” para evitar traições

A tendência, popular sobretudo entre jovens da geração Z, ganhou força nas redes sociais como uma suposta estratégia de segurança afetiva

No filme, a princesa Fiona escolhe viver com Shrek por amor genuíno, apesar da rejeição que ele sofria por sua aparência

No filme, a princesa Fiona escolhe viver com Shrek por amor genuíno, apesar da rejeição que ele sofria por sua aparência | Divulgação

Um novo termo tem dominado conversas na internet e despertado a atenção de especialistas em comportamento: o “shreking”. Inspirada no famoso ogro da animação Shrek (2001), a expressão descreve a decisão de se relacionar com alguém considerado “menos atraente”, partindo da expectativa de receber mais carinho, fidelidade ou reduzir riscos de traição e términos inesperados.

A tendência, popular sobretudo entre jovens da geração Z, ganhou força nas redes sociais como uma suposta estratégia de segurança afetiva, mas levanta questionamentos sobre os rumos das relações contemporâneas.

Do ogro ao afeto: como surgiu o termo

No filme, a princesa Fiona escolhe viver com Shrek por amor genuíno, apesar da rejeição que ele sofria por sua aparência. Nas redes, o conceito foi reinterpretado: a ideia de que parceiros vistos como “menos atraentes” trariam maior estabilidade e compromisso.

Especialistas alertam para riscos emocionais

Para o psicólogo social Cláudio Paixão (UFMG), esse tipo de cálculo pode fragilizar os vínculos:

“Quando o relacionamento é construído pela conexão, a aparição de alguém mais atraente não necessariamente o abala. Mas, quando se valoriza o medo em lugar da ligação genuína, o risco de comprometimento aumenta.”

Segundo ele, a popularidade do termo se conecta à experiência da pandemia, que limitou interações presenciais em um período decisivo para os jovens.

“O ‘shreking’ pode ser uma resposta de segurança afetiva. Essa geração ficou muito tempo presa ao mundo virtual e hoje mostra maior ansiedade em relação a vínculos reais.”

Um padrão antigo com novo nome

A psicóloga Renata de Azevedo (UFRJ) afirma que o fenômeno não é exatamente novo, mas ganhou visibilidade com as redes sociais:

“O que a geração Z fez foi dar um rótulo a algo que sempre existiu: a avaliação do ‘valor percebido’ do parceiro no contexto social. A diferença é que, com as redes, essa lógica ficou explícita e amplificada.”

Ela também lembra que, em um ambiente de hiperexposição, até interações digitais como curtidas e comentários podem ser interpretadas como ameaça, intensificando a busca por “estratégias de segurança”.

Aparência não é garantia de fidelidade

Apesar da lógica do shreking, pesquisas indicam que relacionamentos baseados em medo ou conveniência emocional tendem a gerar insatisfação a longo prazo.

“Escolher parceiros por medo geralmente revela fragilidades internas. O que parecia seguro pode se transformar em frustração e solidão”, aponta Renata.

Caminhos para relações mais saudáveis

Especialistas defendem que a alternativa está em fortalecer autoestima e autoconfiança, criando vínculos baseados em desejo, compatibilidade e acordos claros — e não apenas em aparências ou cálculos de risco.

No fim, o “shreking” pode até soar como uma moda curiosa, mas reflete ansiedades reais de uma geração exposta à hiperconexão digital, às comparações constantes e ao medo de rejeição.

Agamia

Além do “throning”, outro rótulo de relacionamento bastante popular entre a geração Z é a ‘Agamia. O termo, inclusive, chega a “assustar” os mais velhos.

É comum, por exemplo, ouvir os jovens dizerem que não desejam casar ou ter filhos hoje em dia.