A estação mais quente do ano se aproxima e com ela as inúmeras ofertas de dietas milagrosas. Em busca de um corpo esbelto, muitas pessoas se desesperam e acabam adotando práticas alimentares nem sempre saudáveis.
O Diário do Litoral conversou com as nutricionistas Vívian Velloso e Renata Taralo a fim de esclarecer e dar dicas para quem quer adotar uma alimentação mais leve, porém sem perder a saúde.
Elas alertam sobre o risco das dietas radicais, falta de apetite e obesidade infantil, diferenças entre os hábitos veganos e vegetarianos, efeito sanfona e como a ansiedade e a depressão podem interferir nos hábitos alimentares.
Diário do Litoral – O verão está chegando e com ele as dietas radicais. Quais os problemas ocasionados pela falta do consumo de certos grupos alimentares como o carboidrato ou até mesmo se alimentar basicamente de líquidos?
Vívian Velloso – Nessa época do ano as pessoas expõem mais o corpo e a preocupação com a boa forma realmente aumenta.
Restringir grupos alimentares pode gerar certas carências nutricionais, porém a quantidade de determinado grupo alimentar pode ser dividida de forma individual, em proporções diferentes, dependendo do objetivo do paciente.
É importante saber as porções adequadas para ter uma alimentação saudável, equilibrada e conseguir alcançar a boa forma, sendo necessário um acompanhamento orientado por um profissional.
Uma alimentação baseada em líquidos com o objetivo de emagrecimento pode gerar mais fome e não contribuir para uma digestão e absorção adequada, além de ser pobre em fibras e, dependendo da composição, pode não favorecer o emagrecimento.
DL – Quais os sinais que o corpo pode apresentar quando a pessoa passa a fazer alguma dessas dietas radicais?
Vívian – Pode ocasionar fadiga, cansaço, comprometimento imunológico, alteração da microbiota intestinal e alguns sinais clínicos podem aparecer mais tardiamente, como por exemplo, queda de cabelos, unhas fracas, pele sem viço, fissuras nos lábios e alteração ocular.
DL – Quais os procedimentos adotados pelos nutricionistas para aplicarem a dieta correta a cada tipo de paciente?
Vívian – É realizada no paciente uma avaliação completa para saber como está sua composição corporal e a anamnese, que é uma avaliação clínica a fim de coletar informações do paciente como hábito alimentar e de vida, patologias, intolerância alimentar, entre outros dados, e assim traçar um plano alimentar para atingir o objetivo esperado.
DL – Quando é necessário auxílio de inibidores de apetite e como fazer para que o paciente controle a fome quando não tiver mais o apoio da medicação?
Vívian – Ao fazer uso de determinadas substâncias medicamentosas para inibir o apetite, o paciente deixa de passar por um processo de reeducação alimentar e mudança definitiva no hábito alimentar, onde a sua relação com o alimento fica prejudicada, por exemplo, na questão da percepção de fome e saciedade, escolha qualitativa e quantitativa, e todo processo evolutivo que é esperado para uma manutenção de peso, muitas vezes levadas ao indesejado efeito sanfona quando essas substâncias são suspendidas.
DL – Uma das queixas mais comuns entre os pais é que as crianças comem pouco e alguns apelam para os estimulantes de apetite ou suplementos por conta própria. Como essas substâncias agem no corpo infantil? Há riscos?
Vívian – Se a causa da inapetência (falta de apetite) for por deficiência de algum nutriente, por exemplo, de ferro ou vitaminas como as do complexo B, sua reposição faz com que isso se normalize. Porém, muitas vezes esse tipo de estimulante pode fazer com que a criança coma a mais do que suas necessidades, aumentando seu peso de forma inesperada.
Uma forma para esse controle de apetite é a tentativa dos pais de fracionar as refeições ao longo do dia e estimular a criança a participar do preparo dos alimentos. Porém, situações específicas em que a baixa ingestão alimentar passa a comprometer o crescimento da criança, deve ser avaliado o risco/benefício no uso desses estimulantes.
DL – Uma das maiores reclamações das pessoas é o efeito sanfona. No início da dieta as pessoas perdem peso, porém, às vezes a restrição alimentar é tão grande que fica inviável mantê-la por muito tempo. Como resolver o dilema?
Renata Taralo – De acordo com a minha experiência clínica, vejo que o efeito sanfona ocorre porque muitas pessoas não mudam seu pensamento, não entendem realmente o que é e para que serve a reeducação alimentar. Acham que podem voltar a consumir tudo o que sempre consumiram e que não vão engordar e é ai que mora o perigo. Sempre falo para meus pacientes: isso que você esta aprendendo hoje, é uma lição que deve levar para o resto de sua vida. Por isso mesmo que as restrições severas por longo período são ruins porque, não há como manter este tipo de alimentação para o resto da vida.
DL – No caso do vegetarianismo, quais alimentos podem ser consumidos na substituição das carnes? E no caso do veganismo, onde a dieta é ainda mais restrita, sem consumo de nenhum alimento de origem animal, derivados de leite, ovo e até mel?
Renata – Qualquer sistema alimentar é saudável desde que componha todos os nutrientes que você precisa. No vegetarianismo há a retirada de qualquer tipo de carne e peixes, sendo muito importante a variabilidade no consumo dos alimentos, para que não ocorram deficiências nutricionais como vitaminas do complexo B, principalmente B12 e de minerais como o ferro, cálcio e zinco. Para isso é muito importante a introdução diária de oleaginosas (castanhas, amêndoas, nozes, avelã e etc), sementes (chia, girassol, gergelim, linhaça e etc), leguminosas (feijão, ervilha, soja e etc), leite e derivados, ovos, cogumelos (shitake, shimeji, funghi e champignon), coco, verduras, legumes e frutas. Os veganos, por serem mais radicais, devem se atentar ainda mais na diversificação dos alimentos citados acima.
DL – Crianças podem ser veganas ou vegetarianas sem que isso interfira na fase de crescimento?
Renata – Podem, desde que tenha uma alimentação diversificada como relatei acima e façam sempre exames para verificar uma possível deficiência ou não de nutriente, para que não prejudique a sua fase de crescimento.
DL – Qual profissional os pais devem procurar em caso de obesidade infantil? No caso das crianças, entra alguma medicação?
Renata – No caso da obesidade infantil, os pais devem procurar um nutricionista, psicólogo, endocrinologista pediatra e até mesmo educador físico. A medicação dependerá muito do caso em que se encontra a criança, podendo ser usada ou não.
DL – Sintomas psicológicos como ansiedade ou depressão são fatores que atuam diretamente sobre o apetite? Nestes casos, o nutricionista é o profissional mais indicado?
Renata – Uma equipe multidisciplinar é o mais indicado, composta por nutricionista, psiquiatra, psicólogo e educadores físicos são muito importantes nestes casos.
