Papo de Domingo: Um cineasta santista em Hollywood

Afonso Poyart dirige o filme “Presságios de um Crime”, que estreou no cinema no último dia 25

Bosque sagrado da sétima arte, Hollywood abraçou mais um brasileiro: o cineasta, produtor e roteirista Afonso Poyart, de 37 anos de idade, nascido em Santos, na Baixada Santista. O seu primeiro filme norte-americano, “Presságios de um crime” (Solace), estreou na última quinta-feira (25), nas salas de cinema de todo o país. Já nos Estados Unidos, o filme deve ser lançado em meados de setembro.

O ingresso rápido de Afonso Poyart no maior e mais cobiçado mercado de cinema do mundo é tão fantástico quanto um roteiro de ficção, porém, é real. Bastou apenas um filme para que Poyart caísse nas graças de Hollywood. Em 2012, o cineasta lançou “Dois Coelhos”, o seu primeiro longa-metragem nacional. O filme foi um sucesso e lhe rendeu um convite para dirigir “Presságios de um Crime”. No ano seguinte, Afonso Poyart estava num set de filmagens dirigindo o premiado ator britânico Sir Anthony Hopkins e o ator irlandês Colin Farrell. 

“Presságios de um crime” é um thriller policial eletrizante, que une suspense ao sobrenatural, o drama à ação, em uma trama que nos envolve do início ao fim. Sem pistas de um serial killer (Colin Farrell), um detetive do FBI, Joe Merriwether (Jeffrey Dean Morgan), recorre a um velho amigo vidente, o Doutor John Clancy (Anthony Hopkins), para encontrá-lo. A partir daí se desenrola o enredo do filme.

A pré-estreia do filme foi promovida pelo Cine Roxy em parceria com a distribuidora Diamond Films Brasil, no Roxy 5, em Santos, na última quarta-feira (24). A sessão foi só para convidados e contou com a presença do cineasta brasileiro. 

Afonso Poyart é publicitário, iniciou sua carreira profissional em Santos, onde abriu a agência Black Maria. Com o tempo, conseguiu clientes também da capital paulista e transferiu-se para lá, onde tornou-se um bem-sucedido diretor de comerciais publicitários até ingressar no mercado de cinema. 

Em entrevista ao Papo de Domingo e ao Cinema DL, Afonso Poyart falou sobre o seu novo filme, sua experiência nos Estados Unidos e do próximo projeto, o longa “Mais Forte que o Mundo – A História de José Aldo”, que conta a vida e a carreira do lutador brasileiro de MMA.

Diário do Litoral – Como você se sente estreando em Hollywood com “Presságios de um Crime”? 

Afonso Poyart – Eu cheguei nesse filme através de “Dois Coelhos”. Eu fiz meu longa-metragem que acabou chamando a atenção de um pessoal nos Estados Unidos. O pessoal veio aqui, viu o filme no cinema e me convidou para ser agenciado em uma agência específica de talentos nos Estados Unidos. É uma agência que agencia atores, diretores. Eles mostraram “Dois Coelhos” e aí o pessoal começou a me mandar roteiro, querer conversar. Foi muito rápido. “Dois Coelhos” lançou em janeiro de 2012, em julho do mesmo ano eu estava contratado para fazer esse filme (“Presságios de um Crime”). Eu rodei esse filme em 2013. Acho que a indústria lá é muito ávida por talentos de fora, então aconteceu assim, mas foi por conta do filme. “Dois Coelhos” me levou lá.

DL – Como é trabalhar com Sir Anthony Hopkins? Dirigir esse ator extraordinário que, além de protagonista, é produtor executivo do filme?

Afonso Poyart – Não é uma tarefa fácil. Eu suei frio, às vezes. Teve momentos tensos, mas devagar a gente foi se entendendo, principalmente o Hopkins que ficou o período da filmagem inteiro comigo. O Colin entrou no final, nas últimas duas semanas. Mas, a minha convivência com Anthony Hopkins foi bem grande, a gente fez um filme inteiro juntos e foi achando a nossa dinâmica. Ele foi confiando em mim devagar, foi um grande aprendizado. Ele é um grande ator, às vezes tão minimalista que não fala nada e está dizendo muita coisa, com simplesmente um olhar, uma intenção. Então, eu aprendi muito desse poder de um grande ator de, às vezes, falar muito com pouco.

DL – Qual é a sua expectativa para “Presságios de um Crime”?

Afonso Poyart – Eu quero muito que as pessoas vejam o filme (risos). Eu acho que é um filme um pouco brasileiro também. A gente rodou algumas cenas no Brasil, não com os atores, mas a segunda unidade, as cenas aéreas do filme, São Paulo de uma maneira que não parece São Paulo, mas uma cidade americana qualquer. A gente rodou várias outras pequenas cenas que compuseram o filme, o estilo visual do filme é São Paulo. Então, é um filme um pouco brasileiro, além de o diretor ser brasileiro, o montador é brasileiro, um dos fotógrafos é brasileiro, tem uma atriz brasileira que eu levei. Eu acho que é um filme que tem que ser visto pelos brasileiros porque é um pouquinho brasileiro também, apesar de ser americano. (risos).

DL – O seu próximo filme é “Mais Forte que o Mundo – A História de José Aldo”, sobre o lutador de MMA brasileiro. Fale um pouco sobre o projeto. Quando o filme estreia no Brasil?

Afonso Poyart – A gente está com previsão para lançar até o meio do ano. Não temos uma data definida, mas acho que em junho. O filme está acabando, estamos terminando o áudio, os efeitos visuais, e logo mais estará pronto para lançar. Aí é questão de achar um ambiente favorável, próximo de uma outra luta dele. O UFC é sócio desse filme. A gente tem uma coordenação com o UFC para o lançamento.

DL – Por que você quis fazer este filme? 

Afonso Poyart – Foi uma proposta da Paris Filmes, que é uma distribuidora grande aqui que me procurou também logo depois de “Dois Coelhos”. Eles queriam fazer um filme sobre a história de um lutador. A gente procurou alguns lutadores e eu achei o José Aldo, conversei com ele, achei ele uma pessoa incrível, uma história de vida muito interessante. Então, a gente falou: “É esse cara”. Foi uma coisa intuitiva escolher ele para fazer o filme. Eu sou muito orgulhoso desse filme. Ele tem um componente de drama, tem a luta obviamente, mas tem romance, aventura, ação, é um entretenimento bem completo, bem bacana.

DL – Você tem outros projetos em andamento aqui e em Hollywood?

Afonso Poyart – No momento eu estou lendo algumas coisas, mas nada que eu tenha ainda condições de anunciar, mas logo mais terão novidades aí.

DL – Nós temos bons filmes nacionais, mas que não se comparam às produções de Hollywood em termos de investimento. Por que é tão difícil levantar recursos para produzir filmes no Brasil? 

Afonso Poyart – Eu acho que o mercado americano se vende no mundo todo. O filme americano viaja o mundo, ele é pago no mundo todo, por conta disso você tem mais dinheiro, basicamente é isso. Além do que o mercado doméstico americano é muito grande também. É o maior mercado de cinema do mundo. Então, o mercado consumidor de cinema americano é gigante, é o mundo todo e isso torna os orçamentos maiores. A gente tem essa realidade para enfrentar. Eu acho que a gente se comparar com os Estados Unidos é loucura até. A gente tem que olhar pro México, talvez, que é mais ou menos parecido, e tem um cinema um pouco mais à frente do nosso. A Argentina que tem um cinema diferente também. O Brasil precisa ter mais salas como essa aqui do Roxy, precisa ter mais capacidade de exibição para que os filmes fiquem mais em cartaz e possam se rentabilizar mais. Hoje, a gente tem um funil na parte de exibição, precisa de mais complexos de cinema. O circuito é muito pequeno e os filmes ficam pouco em cartaz, se o filme não faz sucesso ele precisa sair, e esse é um dos problemas que o cinema brasileiro enfrenta há décadas. E a gente precisa muito de incentivo do governo, como o cinema americano também tem incentivo do governo, o cinema francês tem. O governo sempre é um papel fundamental na cultura em todos os países. A gente precisa de uma mescla de mercado e governo. Não tem jeito.

DL – Você defende que as operadoras de telefonia celular paguem a Condecine (Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional), recolhida pela Agência Nacional do Cinema (Ancine). Por que? Onde essa contribuição é aplicada? 

Afonso Poyart – Esse imposto vai pro fundo setorial, o FSA (Fundo Setorial Audiovisual, da Agência Nacional do Cinema, do Governo Federal), que é um fundo que financia diversas produções cinematográficas, séries de TV. É superimportante. O filme do José Aldo foi financiado uma parte por esse fundo. A gente perder dinheiro desse fundo é um impacto sério no cinema, não pode ser subestimado. Agora, existe uma discussão porque parece que o governo aumentou os impostos que as operadoras vinham pagando, então as teles não estão falando que não querem pagar, elas só não querem pagar mais imposto, elas estão se negando a pagar mais. Eu acho que o nosso governo aumentou o imposto para, de repente, suprir algum rombo, um deficit em algum outro lado, não sei, mas criou um problema para o audiovisual. É uma coisa que o governo precisa resolver, eu também entendo o lado do mercado das teles de não poder pagar mais imposto. Eles concordam em pagar o que já pagavam. Já era uma quantia que fomentou muito projeto e continua fomentando, agora isso precisa ser resolvido pelo governo, senão vai ter um impacto sério na produção. Tudo o que foi conquistado durante muitos anos aqui no Brasil vai cair e isso não pode acontecer de novo no Brasil.

Cinema DL

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