Personagens, uma trama, uma história. A partir destes três pilares nasce um roteiro que irá nos despertar emoções e sentimentos que nos prenderão a esta obra do primeiro ao último capítulo. E assim passamos a ter um verdadeiro caso de amor com a novela. Mas, antes de tudo isso, vem o roteirista, aquele que põe no papel toda a criação imaginada em sua mente. Aquele que transfere para nós, leitores, espectadores e telespectadores o seu próprio mundo mágico inspirado. Inspiração cuja fonte é a vida real, o mundo particular de qualquer pessoa.
O sonho de trabalhar com roteiro de novelas levou o publicitário santista Victor Antonio Pires dos Santos, de 34 anos, a participar de uma oficina do prestigiado autor Aguinaldo Silva, a Master Class III, realizada de 30 de novembro a 11 de dezembro do ano passado. Concorrendo com quase 800 candidatos, Victor Darmo, como é conhecido, entrou para um seleto grupo de 26 pessoas que tinham como desafio proposto pelo autor criar a sinopse de sua futura novela que, possivelmente, será exibida no horário nobre da Rede Globo.
DL – Escrever o roteiro de uma novela é o seu sonho?
Victor Darmo – Toda vida eu sonhei em trabalhar com roteiro de novelas. Temos o melhor produto do mundo, seja em roteiro, seja na direção e produção. Infelizmente este mercado é extremamente restrito e não existe uma fórmula certa para que os novos roteiristas tenham contato com os mestres, para trocar experiências, aprender e também cavar oportunidades. E participar da Master Class, do Aguinaldo Silva, foi o primeiro grande passo rumo a esse sonho.
DL – Quando despertou sua paixão por escrever? Quantos anos tinha e o que o motivou?
Victor Darmo – Minha mãe é professora e o incentivo à leitura veio de casa. Então eu cresci em meio a livros e adorava ler histórias. Começar a criar as minhas foi um processo automático. E desde muito criança tive mão para o desenho, presentes que me deixavam feliz no aniversário e no Natal eram jogos de lápis de cor e canetinhas. E eu passava horas a fio nos tempos vagos criando personagens e suas histórias. Aos 13 anos eu já falava que queria escrever novela. Eu ficava maravilhado com a capacidade dos autores em criar personagens tão reais, que a gente pudesse falar sobre eles numa roda de amigos ou durante o jantar em família. Personagens que, mesmo inseridos em histórias muitas vezes bem distantes do nosso cotidiano, tinham anseios, sentimentos, limitações e superações como as pessoas de verdade. Eu via como a novela tinha esse poder de criar um mundo novo que ao mesmo tempo era tão a cara do nosso. E saber que tudo aquilo nascia da cabeça de uma pessoa me fascinou. Eu tinha a minha cabeça povoada por muitas pessoas e suas histórias e se toda essa criatividade pudesse ser uma profissão, seria nela que eu gostaria de trabalhar o resto da vida.
DL – Defina “escrever”? O que essa paixão representa para você?
Victor Darmo – Escrever é imprimir não no papel, mas no coração do outro, um sentimento que está dentro de quem escreve. O papel é somente o meio pelo qual essa essência trafega. A humanidade é tal como é graças à capacidade que desenvolvemos da escrita. É uma forma de autoconhecimento constante, de aprendizado, de diversão e também de terapia. É uma arte completa.
DL – Você já escreveu roteiros? Quando começou?
Victor Darmo – Eu tive uma juventude bem atuante na igreja em que fui batizado. Lá, escrevi os meus primeiros roteiros para o teatro, textos que eu guardo hoje com muito carinho e também um pouco de vergonha: meu Deus, como aquele público podia curtir tanto o nosso trabalho (porque as apresentações eram sempre muito bem prestigiadas). De fato, eu ainda não estava lapidado na técnica, mas imagino que havia muita verdade ali. Eu escrevia sobre o que acreditava, a minha fé. Acho que por isso a comunidade se identificava. Depois disso participei de um concurso, o “Novos Talentos Literários da Baixada Santista” e tirei o 3º lugar. E mais para frente, houve um concurso de story lines no falecido Orkut, numa comunidade voltada a roteiristas. A gente postava as story lines, que são sinopses super-resumidas, a essência nuclear sobre a qual geraria a órbita de uma possível novela. Quem julgou foram alguns convidados do moderador, dentre eles Euclides Marinho, também roteirista da Rede Globo e eu tirei o 3º lugar.
DL – Por que você se inscreveu na oficina de Aguinaldo Silva?
Victor Darmo – Eu já acompanhava as postagens do Aguinaldo pelo Facebook e, às vezes, no site do autor. Na listagem das novelas mais marcantes da história da teledramaturgia brasileira, o Aguinaldo aparece com suas obras diversas vezes. Certa vez li também um depoimento que me tocou muito, em que ele falava sobre sua história de vida, sua origem humilde, o sacrifício que seus pais fizeram para lhe dar uma boa educação e os absurdos que enfrentou desde muito novo com o preconceito. Então, eu sempre vi nele uma dupla referência: enquanto profissional e ser humano também. Quando soube que ele lançaria a terceira Master Class, eu me inscrevi mais para desenferrujar. Desde que eu abri a minha agência de publicidade há cinco anos, eu passei a respirar 24 horas as campanhas dos meus clientes, canalizando a criatividade para campanhas e administrando crises. Pensei comigo: por que não tentar? Mas, de verdade, eu só queria ter o prazer de saber que fui lido e ter meu nome citado na listagem dos 50 alunos (a primeira lista). Depois desta houve a peneira final com os 26 finalistas e eu fui convocado. Foi uma grande surpresa.
DL – A oficina é inédita no país? Quando começou e quanto tempo durou?
Victor Darmo – Durante o tempo que passamos em Petrópolis, nós trocávamos muita informação sobre o mercado. Havia alunos de todas as partes do Brasil e, por eles, soube que a Gloria Perez já deu curso de roteiros, o Alcides Nogueira (autor de I Love Paraisópolis) e também fiquei sabendo que a Thelma Guedes já está anunciando um encontro com roteiristas aspiras. Mas neste formato, de duas semanas, intensivo, totalmente prático e que mobiliza todos os alunos na criação de uma sinopse do começo ao fim, acredito que o Aguinaldo é pioneiro. Fomos 26 alunos, gente de todas as idades e profissões. O mais novo tinha 20 anos e acredito que o mais maduro pelos seus 60. E lá ficou mais que provado o quanto a novela fascina o brasileiro, porque entre nós, aspirantes, tinham pessoas que eram professores, publicitários, jornalistas, comerciantes e nas másters anteriores até dentista. Mas também conheci pessoas que já vivem de roteiro e tem projetos em andamento, no cinema e em emissoras. Foram dez dias de curso com cerca de 45 horas/aula 100% práticas.
DL – Quantas pessoas se inscreveram?
Victor Darmo – Foram quase 800 candidatos.
DL – Por que você foi selecionado?
Victor Darmo – Todos os candidatos a participarem da Master Class deviam escrever duas cenas posteriores ao último capítulo de Império. E, em uma delas, o Comendador apareceria vivo à Maria Marta (Lília Cabral). Desenvolver estas cenas, juntamente com a criatividade de cada candidato em explicar “como” o Comendador estaria vivo – sendo que no último capítulo ele levou um tiro, morreu e foi cremado – era o nosso grande desafio. Acredito que o Aguinaldo deva ter avaliado o conhecimento técnico, ritmo e criatividade das cenas criadas, além de coerência com a novela. Mas a melhor pessoa para responder os critérios é ele.
DL – Você se sentiu orgulhoso de ser um santista fazendo parte de uma oficina de Aguinaldo Silva, com o intuito de desenvolver a trama de uma futura novela?
Victor Darmo – A minha maior alegria até então tinha sido a conclusão da faculdade. Ser chamado para a Master Class foi um misto de euforia, prazer, gratidão. Um reencontro com o Victor do passado, aquele garoto que sempre sonhou com aquele momento, mas que pela força da necessidade, teve que conduzir a paixão para outra área. Me formar publicitário me propiciou trabalhar com algo que também envolve demais o uso da criatividade e que segue sendo hoje uma grande paixão, mas lá atrás eu optei porque não via como alguém de Santos chegar lá, neste mercado de roteiristas, em sua maior parte concentrado no Rio de Janeiro. Sinto orgulho, mas a gratidão vem primeiro. A Deus, a quem dedico todas as conquistas na minha vida, e ao Aguinaldo, pela iniciativa deste projeto tão importante para revitalização deste mercado tão fechado.
DL – Aguinaldo Silva é dos principais autores de novelas do país, quem ele é para você?
Victor Darmo – Confesso que antes de conhecê-lo, fazia uma imagem completamente diferente de sua pessoa, que eu acho que é a imagem que muita gente tem dele. Graças à revistas de fofocas, algumas entrevistas e até mesmo a alguns textos dele publicados em seu site e colunas que assina, eu imaginava um Aguinaldo muito inteligente, bem humorado, mas de temperamento difícil, com excentricidades e posto num invólucro, como muitas celebridades que se vê por aí. Mas o que eu vi foi um homem extremamente simples, embora refinado, de fala mansa, sem alterações, dócil, extremamente generoso no ensinar e, acima de tudo, alguém que nos viu, nós alunos, com dignidade, como futuros profissionais. Durante a criação do perfis dos personagens, da trama central e das subtramas, todos eram incentivados a falar, dar suas ideias. Eu ficava abismado como todas as ideias dos participantes eram por ele docilmente lapidadas e aproveitadas; ali ninguém se sentia menos que ninguém. Durante os dez dias, não fomos alunos e o professor: fomos autores com autores. Obviamente, o Aguinaldo está anos-luz de qualquer um de nós, mas ele quis que fosse assim, que nos sentíssemos iguais, todos com o mesmo peso e convidados à criar em conjunto.
DL – O que vocês desenvolveram na oficina?
Victor Darmo – A Master Class foi uma aula na prática, mais ou menos como você aprender a dirigir um carro sentando no volante e dando a marcha. Os primeiros três dias foram dedicados à criação dos personagens. Depois desenvolvemos melhor estes personagens, suas tramas. Num outro momento, todas as tramas foram passadas para o papel e costuradas à trama central. Os últimos dias dedicamos à criação do primeiro capítulo da novela.
DL – Esta já é a sinopse final da novela?
Victor Darmo – Ao fim da Master Class, tínhamos em mãos uma sinopse completa, de mais ou menos 80 páginas, que contém todas as informações necessárias para pôr o boeing – no caso, a novela – no ar. Agora, obviamente, para pôr este boeing no ar, o Aguinaldo vai fazer uma leitura mais amiúde de todo o projeto, lapidar o texto, trabalhar melhor alguns personagens, o que chamamos de segundo tratamento, o que é natural. Não se cria uma novela com 26 cabeças muito menos em dez dias. É trabalho para meses. A novela que nasceu da Master tem corpo de novela das nove, não imagino ela em outro horário.
DL – Quando o projeto deve ser enviado para aprovação da emissora?
Victor Darmo – Não faço a menor ideia. Mas segundo informações que tem pipocado na mídia, o Aguinaldo tentará emplacar (a novela) em 2017.
DL – Você será colaborador dos capítulos da novela?
Victor Darmo – Não houve promessa do Aguinaldo em chamar nenhum dos alunos para colaborar no trabalho da nossa novela. Até porque ele já vem trabalhando com uma equipe altamente competente e que rendeu um reconhecimento internacional com o Emmy deste ano (2015). Mas é claro que adoraria ser chamado. Não teria alegria maior.
DL – Por que alguns atores, como a Lília Cabral, estiveram na oficina?
Victor Darmo – O Aguinaldo, como também nas másters anteriores, presenteou os alunos com a visita de alguns artistas, para exporem o relacionamento deles com o material que nós criamos, o roteiro. Como eles ensaiam, como é a criação dos personagens, etc. Além da Lília Cabral, também conversamos com outros artistas globais como Marcelo Cerrado, Josie Pessoa e Adriana Birolli.
DL – Ela fará parte do elenco da futura novela? Vocês trabalharam na personagem dela?
Victor Darmo – A grande vilã da novela será Valentina Marsala e o Aguinaldo sugeriu à turma que fosse a Lília, e todos assinaram embaixo na mesma hora. Quando o texto é bom e os artistas principais são diamantes, como é o caso da Lília, é praticamente impossível o projeto não dar certo. Teremos uma grande vilã, daquelas de mexer com o Brasil e temos certeza que a Lília fará com maestria, dando vida a ela.
DL – Ter feito parte da oficina de Aguinaldo Silva abriu portas para você nesse ramo?
Victor Darmo – Tudo é ainda muito recente. Mas ter um certificado assinado pelo mestre com certeza abrirá portas, tanto pelo próprio endosso do curso como pela maturidade que aumentou nesse intensivão de dez dias.
DL – É a sua primeira participação em um projeto como este? Pretende participar de novas oficinas?
Victor Darmo – Eu participei por dois anos de um curso de dramaturgia, que é a criação de roteiros voltados ao teatro. Curso para roteiros de TV foi a primeira. Pretendo sempre que possível. O caminho é longo, ainda vou ter que estudar muito e o contato com profissionais que estão no ramo há muitos anos é uma fonte riquíssima de aprendizado. Por mais talento que se tenha, ninguém amadurece sozinho. Por isso, iniciativas como a do Aguinaldo são tão importantes para a renovação da categoria.
DL – Tenho visto o surgimento de novos nomes, na última década, nas emissoras do país que produzem novelas. Como você sente que está este mercado hoje? Há abertura para escritores como você? Aguinaldo Silva abriu essa porta para uma nova geração de escritores talentosos?
Victor Darmo – Acredito que o Aguinaldo inventou um meio de fazer um caminho que até então era impossível: pessoas das mais diversas partes do Brasil e de formações tão diferentes, serem treinadas, avaliadas e até mesmo contratadas pela maior emissora do país. Embora não tenha promessa alguma nesse sentido, dos 30 alunos que fizeram parte das másters anteriores, 10 foram chamados para projetos na emissora. Ou seja, a ‘Master’ levou estas pessoas até a oportunidade da vida delas. Acredito que o mercado de roteiro é ainda muito concentrado no Rio e São Paulo e também muito fechado. Não existe um departamento nas emissoras que receba currículo de roteiristas e sinopses para avaliação por exemplo. Imagina você querer trabalhar em algo que não existe anúncio de emprego em lugar nenhum, e as grandes empresas do ramo não aceitam nem te conhecer. Mas acredito também que o crescimento dos canais a cabo e a internet tendem a abrir um pouco mais essa porta.
DL – Quais são seus projetos para 2016? Escrever uma novela? (risos)
Victor Darmo – Escrever uma novela é um sonho pelo qual continuarei batalhando em 2016 e incontáveis anos pela frente. Mas só de ter a graça de viver mais um ano já encaro como a chance de escrever uma novela, pessoal, a da minha vida. E que seja uma novela bem melhor que a que vivemos em 2015.
