Não diferenciar margarina da manteiga ao fazer compras em um supermercado. Fingir perder os óculos para pedir ajuda ao pegar um ônibus. Esses são alguns exemplos cotidianos descritos pela baiana Amarilia Maria de Oliveira sobre quem ainda não dominou as letras: “O analfabetismo é igual à cegueira”.
Um dilema que embaraça em torno de 47,9 mil moradores da Baixada Santista nesta década, conforme dados da Fundação Seade (2010). “Quando não sabia ler, sentia-me diminuída, até menos querida pelas pessoas, porque não podia participar das mesmas conversas que os demais. Isso mexe com nossa autoestima”.
O beabá tardou para a quinta de seis irmãos no interior de Piatã. Mas nos anos 60, as letras nem eram familiares também aos seus parentes, sequer a 39,7% dos brasileiros, segundo o IBGE. Em 2017, o mesmo instituto apontou que o analfabetismo caiu para o índice de 7,2% no país. A estimativa é que seja em 4% da população regional.
Se na infância rural foi órfã de mãe, a adolescência urbana marcou a separação dos demais entes. Em São Paulo, foi internada entre a vida e a morte em decorrência de esquistossomose. Desde então, toda a maioridade se dedicou como empregada doméstica de uma mesma família.
“É claro que quem estuda quando é mais novo, pode tomar outros rumos, sabe? Como saber colocar as ideias no papel a ponto de abrir o próprio negócio”, comenta a atual aposentada. Já por volta dos 20 anos, foi incentivada a entender os livros, em um curso gratuito de educação popular num centro religioso. Das cartilhas da Fundação Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral) até os gibis da Turma da Mônica foram um pulo. Logo, Amarilia devoraria quaisquer obras em bancas de jornais.
Como todo hábito, a leitura foi sendo escanteada até a última década, quando se encontra semanalmente com outros adultos e idosos na Paróquia Nossa Senhora do Rosário de Pompeia, que mantém gratuitamente uma turma de alfabetização de adultos, a fim de preparar ou complementar a formação das pessoas no ensino formal.
TERCEIRA IDADE
A maioria da classe é da terceira idade, uma geração que não foi abraçada pela universalização da educação básica pós-redemocratização ou pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, que mal chegou aos 30 anos.
De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), em 2016, estima-se que o analfabetismo alcança 11,8 milhões de brasileiros, e “apresenta relação direta com a idade, aumentando à medida que a idade avançava até atingir 20,4% entre as pessoas de 60 anos ou mais”.
No recorte de cor ou raça, 9,9% das pessoas pretas ou pardas não foram alfabetizadas, enquanto esse índice cai para 4,2% entre pessoas brancas. O afastamento das letras é mais comum no Nordeste (14,8%) e no Norte (8,5%) do que no Sudeste (3,8%) ou Sul (3,6%).
“Quero que todo mundo saiba que os estudos só trazem vantagem às pessoas”, destaca Amarilia, que hoje em dia, anota as ideias em seu celular e costuma se impressionar com as histórias da Bíblia e de uma saudosa amiga, a escritora Helle Alves (1926-2019). Mais recentemente, conheceu o clássico ‘O Pequeno Príncipe’.
EM SANTOS
Em âmbito municipal, a alfabetização aos adultos ocorre nos anos iniciais na modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em Santos, as matrículas podem ser feitas a qualquer tempo diretamente nas seguintes Unidades Municipais de Ensino (UMEs): Barão do Rio Branco (Campo Grande), Cidade de Santos (Embaré), Dino Bueno, Gota de Leite (ambas na Encruzilhada) e Esmeraldo Tarquínio (Bom Retiro).
Também abrangem este serviço na rede municipal de Santos as UMEs José Bonifácio (Vila Nova), José Carlos de Azevedo Jr. (São Manoel), Leonardo Nunes (Castelo), Mário de Almeida Alcântara (Valongo), Monte Cabrão, Ricardo Sampaio Cardoso (ambas na Área Continental), Therezinha de Jesus Siqueira Pimentel (São Bento) e 28 de Fevereiro (Saboó).
NA REGIÃO
Em Peruíbe, os futuros alunos podem se inscrever diretamente nas escolas Profª Adriana Aparecida Almeida dos Santos (3456-1424, Estância Antônio Novaes), Profª Rosangela Anunciada da Silva (3455-9544, Jardim Caraminguava) e Profª Terezinha Rodrigues Kalil (3455-1255, Centro). A documentação necessária é: idade acima de 15 anos, comprovante de residência, RG e documento que comprove eventual escolaridade.
As inscrições nos anos iniciais também podem ser realizadas a qualquer momento na EJA de Guarujá (informações pelo telefone 3308-1700, ramal 7709) e de Mongaguá (3506-7330). Em Itanhaém, as inscrições seguem até setembro, onde as aulas são nas UMEs Eugênia Pitta Rangel Velozo (Anchieta) e Célia Marina Dal Pozzo Borges (Jd. Umuarama), sendo que o setor responsável atende pelo telefone: (13) 3421-1700, ramal 1790.
Em Bertioga, as inscrições para essa modalidade são no início de cada semestre, mesma situação em São Vicente (3569-2236) e Praia Grande (3496-2350). A Prefeitura de Cubatão não informou sobre o EJA no município até o fechamento dessa reportagem.
