Procurada pelo Diário, a secretária de Segurança Pública de Santos, Raquel Gallinati, que é Diretora da Associação dos Delegados de Polícia do Brasil, fez um desabafo sobre a triste história envolvendo a morte do menino Ryan da Silva Andrade Santos, de apenas quatro anos, vítima fatal na noite da última terça-feira (5), após uma troca de tiros entre policiais militares e criminosos no morro do São Bento. O pai de Ryan também foi morto nas mesmas circunstâncias do filho de meses antes, conforme adiantou ontem (7) o Diário do Litoral.
“Quando uma bala perdida atinge um inocente, seja disparada por policiais ou por criminosos, isso representa uma falha gravíssima no comando e no planejamento dessas operações que precisam ser revistas. Operações devem ser planejadas e executadas com excelência, com estratégias que preservem vidas. Uma ação que coloca vidas inocentes em risco torna-se muito mais grave do que o próprio crime que pretende-se combater”, afirma Raquel.
A secretária lembrou que as forças policiais existem para proteger a sociedade, atuando como escudo entre o crime e o cidadão e que o papel é combater a criminalidade para promover a paz e a justiça, o que exige o cumprimento rigoroso das leis.
“A responsabilidade pela morte de uma criança ou qualquer inocente vai muito além dos agentes que cumpriram a ordem e a missão. Vão ficar com um trauma eterno pelo fracasso. O comando e a preparação das operações é um reflexo que o amparo estatal não foi garantido a quem mais depende dele e esse tipo de falha abala profundamente a confiança da sociedade na segurança pública. A perda de uma vida inocente jamais pode ser tratada como apenas danos colaterais”, finalizou a Raquel.
Pai de Ryan
Leonel Andrade dos Santos, pai de Ryan, também faleceu após ser atingido por ‘bala perdida’, em fevereiro deste ano, na polêmica Operação Verão, deflagrada pelo Governo de São Paulo, considerada 60,7% mais letal do que sua antecessora, a Escudo, de 2023. Em 40 dias de ações, foram 45 mortes de suspeitos comparadas às 28 da Escudo.
A mãe de Ryan e esposa de Leonel, Beatriz da Silva Roda, que é merendeira em Santos, está muito abalada e pouco fala com a Imprensa. No caso de Ryan, segundo boletim de ocorrência, policiais militares estavam fazendo uma operação e foram recebidos a tiros pelos criminosos.
O menino estava brincando em uma rua da comunidade e foi atingido. Ele teria sido socorrido ao hospital mas não resistiu aos ferimentos. A Polícia civil investiga o caso para descobrir de onde foram os disparos que resultaram na morte do menino.
Ontem (7), coronel Emerson Massera, porta-voz da PM Paulista, durante coletiva no Comando Geral da PM, informou que provavelmente partiu da arma da Polícia Militar a bala que atingiu Ryan.
A Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP) lamentou a morte da criança, baleada durante o confronto e disse que “os policiais militares faziam patrulhamento em uma área de tráfico de drogas na região quando foram atacados por um grupo de aproximadamente 10 criminosos”, disse a pasta.
A Delegacia Seccional de Santos instaurou um inquérito para apurar os fatos e determinou a realização de perícia nas armas apreendidas e no local do confronto para esclarecer a origem do disparo que atingiu a criança, informou a SSP-SP.
Só o começo
O caso envolvendo o menino e seu pai serve como um alerta sobre a próxima Operação Verão do Governo Tarcísio de Freitas. A anterior foi bastante criticada por entidades dos direitos humanos, a Ouvidoria das Polícias e a Defensoria Pública do Estado.
Na ocasião, houve um salto de 106 para 197 mortes no Estado, segundo números do Grupo de Atuação Especial da Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial (Gaesp), do Ministério Público Estadual. Nas nove cidades da Baixada Santista, o salto foi de 15 para 79. Os dados se referem às mortes cometidas por PMs tanto de serviço quanto de folga.
O Governo se vangloriou revelando a prisão de 1.025 suspeitos, dos quais 438 procurados pela Justiça, e apreensão de 47 menores. Da apreensão de 2,6 toneladas de drogas e 119 armas de fogo desde o seu início em 2018. Mas a ação que teve o maior número de mortes desde o massacre do Carandiru, em 1992, é suspeita de uso excessivo da força e de atingir vítimas inocentes.
Relatos de abusos e de ações desproporcionais da polícia foram feitas nas redes sociais e por moradores de comunidades ao longo da operação. Policiais foram flagrados destruindo câmeras de segurança em uma favela no Guarujá.
Houve caso de oito policiais militares dispararem 188 tiros de fuzil contra três suspeitos no Morro Nova Cintra, assustando moradores, que registraram em vídeo o tiroteio. O caso foi registrado na Central de Polícia Judiciária (CPJ) de Santos como disparo de arma de fogo e homicídio tentado. A Secretaria de Segurança afirmou que os PMs foram recebidos a tiros e revidaram contra os três criminosos, que conseguiram fugir.
O presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), Dimitri Sales, encaminhou uma representação ao Ministério Público de São Paulo por improbidade administrativa contra o Secretário de Segurança Pública do Estado, Guilherme Derrite, por causa das denúncias.
Tarcísio chegou a defender o trabalho dos policiais na Baixada Santista, ao ser questionado pela denúncia da ONG Conectas e da Comissão Arns na 55ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU contra a ação dos policiais. Disse que estava tranquilo sobre trabalho feito. “Então o pessoal pode ir na ONU, na Liga da Justiça, no raio que o parta, que eu não tô nem aí”, afirmou o governador na ocasião.
