Ele é presidente do Sindicato dos Eletricitários de São Paulo (o maior da América Latina) e da Federação Nacional dos Trabalhadores em Energia, Água e Meio Ambiente (Urbanitários). Pré-candidato a deputado federal pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B), Eduardo Annunciato, o Chicão, revela que é preciso mudar o Congresso, tirar os que definem a política econômica (tubarões) se o Brasil quiser mudar a realidade.
Diário do Litoral – Como você avalia a possível privatização da Eletrobrás?
Chicão – Vencemos a batalha, mas não a guerra. O governo não irá desistir. Estive com o Rodrigo Maia (DEM) – presidente da Câmara dos Deputados – discutindo essa questão, que me disse ser ideologicamente a favor da privatização sem discutir a questão financeira da medida, mas que não a colocaria em votação por conta das eleições. Então, ou a gente troca esses caras ou estamos ferrados.
Diário – Quais as consequências dela?
Chicão – A Eletrobrás é nossa (do Brasil). Então, você não pega algo que vale R$ 370 bilhões e vende por R$ 20 bilhões para empresas estrangeiras. Mas essa é a proposta.
Diário – A questão é só financeira?
Chicão – Não. Tem outros pontos. O aumento da energia para o consumidor será, de bate pronto, de 17%. Será a energia mais cara do Mundo, com a geração mais barata do Mundo, e os caras ainda querem repassar para o setor privado sob pretexto de equilibrar as contas.
Diário – Tem mais?
Chicão – Sim. Quem detém a geração de energia elétrica no Brasil também detém o controle de água. Isso porque todas as represas que geram energia controlam os fluxos de água dos maiores rios brasileiros. Ou seja, nossa soberania nacional estará sob risco. O detentor da Eletrobrás conseguira secar uma região se deixar, por um tempo, fechado o vertedouro da usina. Um exemplo. Furnas (MG). Cerca de 57 municípios do entorno dependem do turismo para sobreviver. Com a privatização, a represa vai junto e poderá não garantir o uso turístico da água. Fora o uso comum.
Diário – Já há interessados?
Chicão – Está ocorrendo uma briga entre os chineses, espanhóis e italianos. As usinas de Jupiá e Ilha Solteira foram vendidas para os chineses por R$ 15 bilhões. Elas geram 10% da energia do País. A intenção deles não é a energia elétrica, mas o fornecimento de equipamentos e tecnologia que a China passa a vender para mantê-las em funcionamento. Nada contra investimentos no Brasil, mas não podem ser especulatórios e predatórios.
Diário – E a geração de empregos?
Chicão – Sempre a uma enxugada. Isso ocorreu em todos os equipamentos comprados. Também tem as perdas de conquistas dos trabalhadores brasileiros. Ganham em tudo que é lado.
Diário – A velha máxima que a empresa só dá prejuízo é usada sempre.
Chicão – Vamos supor que a gestão pública está sendo ruim. Então, ao invés de demitir o gestor, vende-se a empresa. A Eletrobrás só deu prejuízo dois anos. No terceiro teve R$ 300 milhões e agora R$ 3 bilhões de lucros. Mas estão fazendo de tudo para mostrar uma situação negativa. O Michel Temer anunciou dobrar o salário da direção para jogar a opinião pública contra a empresa pública. É bom que fique claro que as empresas privadas têm que lucrar e enviar dividendos para o exterior, as estatais não. Então, o que temos que discutir é gestão e não venda da empresa.
Diário – Como você avaliou a possibilidade de Peruíbe abrigar uma termoelétrica?
Chicão – A ideia de termoelétrica no Brasil deveria ser abolida. Até a nuclear é melhor, mais segura e limpa. Existem inúmeras outras fontes de energia, inclusive a hidroelétrica, que podem ser incentivadas no País. Temos muitas cascatas a serem exploradas. Termoelétrica gera poluição e custo alto de produção de energia. Temos a energia solar, que é a mais limpa, mais duradoura e que mais temos condições de obter fonte geradora. Nosso pior local em termos de insolação, que é Santa Catarina, é 10 vezes maior do que a Alemanha, por exemplo, onde a energia solar é grande.
Diário – E a Usina Henry Borden?
Chicão – Eles dizem que está proibida de gerar energia por causa da poluição da represa Billings. Na verdade, parou para deixar a represa cheia. Ela foi projetada para gerar energia. Havia uma linha de transmissão que saia dela e chegava na Avenida Paulista, na Capital. Chegou a gerar 15% da energia do Estado.
Diário – Como você avalia o governo?
Chicão – Sabe quantas vezes equivale o saneamento básico no orçamento da União. Gastamos 39% dele com juros e amortização da dívida e 0,03 com saneamento básico. Educação 4.1% e Educação 4.3%, congeladas por conta da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 95, que não prevê o crescimento demográfico. Isso foi um esculacho. Cada um real economizado em saneamento, são quatro em saúde. Então, nosso ministério não deveria ser da saúde, mas da doença, pois cuida do problema e não da causa. Essa lógica perversa tem que ser revogada, bem como essa reforma trabalhista e as que estão em discussão. Temos também que parar de vender nosso patrimônio. Tem que haver uma convulsão social. Temos que caçar os tubarões que definem a política econômica.
