‘Todas as pessoas têm valor’

Programa de Extensão olha para o problema do uso de drogas, priorizando a vida do ser humano.

Das ruas para a universidade. Usuários e ex-usuários de drogas e pessoas que vivem ou já viveram em situação de rua deixam de lado a invisibilidade social para aprender e ensinar em um local que – apesar de ser para todos – talvez nunca tivessem pensado em chegar: a universidade.

A reportagem do Diário do Litoral conversou com Luciana Surjus, coordenadora geral do Programa de Extensão Centro Regional de Formação em Políticas Sobre Drogas e Direitos Humanos, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), sobre a formação em Redução de Danos, que tem como diferencial a participação direta dos usuários. Confira a entrevista exclusiva:

Diário do Litoral – Como funciona o Programa de Extensão?
Luciana Surjus – Ele é desenvolvido pela Unifesp, em parceria com Univesp. 
O grupo é composto por representantes de todos os municípios, pela diretoria regional de saúde, de assistência social e pelo conselho de gestores da Baixada Santista, em uma tentativa de estabelecer uma política de redução de danos na região, que é pensar a questão do uso de drogas a partir do marco dos direitos humanos. 

Como a gente parte da universidade, temos uma responsabilidade na formação de novos profissionais e de trabalhadores, e na atualização de quem já trabalha com isso. O diferencial dessa formação é a participação ­direta dos usuários. 

Pessoas que ainda estão em situação de rua ou que já viveram em situação de rua e de uso de drogas vêm para esse espaço tanto para estudar, se formando como redutores de danos, quanto para ensinar. 
Hoje, o projeto está viabilizando a vinculação de estudantes, usuários e trabalhadores, como bolsistas da Universidade, e tivemos a primeira experiência de ter uma vinculação de usuários como celetistas da fundação de apoio à universidade.

Diário – A redução de danos seria então tratar as drogas ­priorizando as ­pessoas?
Luciana – O principal é isso. Que a preocupação ao longo dos processos seja centralmente nas pessoas. 
A redução de danos é um norte ético, um jeito de olhar o problema de uso de drogas, deixando a preservação da vida no centro. Todas as pessoas têm valor e a partir desse reconhecimento é que a gente vai poder repensar o valor de drogas na vida das pessoas. Apostando nisso, pode ser que a gente consiga que a droga ocupe um espaço diferente para a pessoa.

Diário – Como foi feita a escolha dos participantes?
Luciana – É importante ressaltar que a universidade tem três funções principais: formar profissionais (ensino), desenvolver novos conhecimentos (pesquisa) e a função de extensão. Essa última pressupõe a relação direta de troca com a comunidade. Então, a partir dessas relações, pedimos ajuda para trabalhadores de serviços como Consultório na Rua e Caps AD (Álcool e Drogas)  para que, junto com a gente, divulgassem o projeto entre os usuários. A partir daí foram escolhidos os celetistas e os bolsistas.

Diário – Qual a diferença entre celetista e bolsista?
Luciana – A universidade exige um mínimo de escolaridade para trabalhar com uma política de bolsas,  e esse pagamento é vinculado à escolaridade. Tivemos a preocupação de não querer que a escolaridade fosse um corte. Conseguimos isso com os celetistas, mas aí eles cumprem uma carga horária mais longa (20h), assinam ponto e tem um salário diferente dos bolsistas.   
Já a carga horária do bolsista é reduzida e a vinculação é mais pontual. 

Diário – Alguns dos que fazem parte do Program ainda estão em situação de rua?
Luciana – Sim. Tem pessoas que aprenderam a viver na rua e tem muita dificuldade de sair. O que temos aqui é uma relação de trabalho, não de interferir nas escolhas da vida, mas a gente vai mostrando outras visões. Quando se sentem reconhecidos, valorizados e com oportunidade, eles podem escolher outras coisas.

Diário – O que vocês já conquistaram?
Luciana – A gente conseguiu aumentar muito os espaços de participação. Fizemos uma pré-conferência sobre drogas aqui na Unifesp; e fomos para Conferência Municipal, conseguimos aprovar uma proposta da criação do cargo público de Agente Redutor de Danos. 

Diário – O convênio vai até abril, quais os planos depois?
Luciana – Nós estamos divulgando e pensando parcerias para poder ampliar e manter. Os bolsistas e celetistas têm a sustentação financeira no projeto até abril. Temos um grupo de pesquisa chamado ‘Diverso’, se a gente não conseguir mais parcerias, o grupo  está aqui e as pessoas podem continuar participando. É o que temos de garantia. 

Em tempo – Após a entrevista, Luciana retornou o contato para compartilhar que tiveram ‘a primeira boa notícia’ da mobilização dos usuários para a continuidade do projeto:  o Programa foi indicado pela vereadora Telma de Souza para a destinação de emenda ­parlamentar.

Projeto em Santos dá voz para os ‘invisíveis’

Por quinze anos, as ruas foram a ‘moradia’ de Otaviano Lopes dos Santos. Hoje – cinco anos depois – ele chegou em um lugar que nunca imaginou: a universidade. Graças ao Programa de Extensão Centro Regional de Formação em Políticas sobre Drogas e Direitos Humanos, Santos se formou (e atua) como Redutor de Danos. 

Para chegar onde está, uma ‘rede de proteção’ fez toda a diferença. “Eu fui para a clínica de recuperação e quando saí a Simone, do Consultório na Rua, disse que ‘eu não ia ficar por aí’, que eu ia com eles”, relembra. 

Quando o projeto de Redução de Danos nasceu, foi Simone quem inscreveu ele. “Eu achei que não teria o que falar, mas ela me incentivou”, comenta. “Eu disse que sou ex-morador de rua e ex-usuário de drogas, e que tenho muitos amigos que ainda se encontram nesse período (de morar nas ruas), então quero estar próximo deles para poder ajudá-los”, afirma, mostrando em seguida, orgulhoso, seu primeiro certificado. Foi assim que ele entrou no projeto.  

Para Oliveira, a redução de danos sensibiliza as pessoas, que muitas vezes não sabem como é a situação de quem está nas ruas e usa drogas. “Desde quando saí da clínica, eu acompanhei o pessoal do Consultório na Rua. Ia para palestras, passeava em lugares interessantes. Isso já era uma redução de danos, porque se eu tivesse saído da clínica e não tivesse uma ocupação, poderia voltar para as drogas”, explica.

A experiência de vida de Otaviano e das outras pessoas que vivem ou já viveram nas ruas é o diferencial do projeto. “Eu, como facilitador do projeto, tenho o conhecimento de introduzir minha turma da universidade, da redução de danos, ali (nas ruas)”, esclarece.

Otaviano, que nunca imaginou que chegaria à universidade,  acredita que muitos talentos estão sendo revelados. “Um pessoal que era de rua está vindo para a universidade e está dando show”, diz. “Tem profissionais capacitados, mas porque usam uma substância são ­esquecidos”.

Para quem não entende a situação de quem vive nas ruas e usa drogas, Otaviano termina a entrevista com esta analogia: “Às vezes, ela (a pessoa) usa droga porque está no meio, é uma brasa no meio da fogueira. Se você tirar ela dali, ela vai apagar. Mas se deixar, continua incandescente”.

Para que cada um possa apresentar o seu ponto de vista, quem participa da formação em Redução de Danos do Programa de Extensão Centro Regional de Formação em Políticas sobre Drogas e Direitos Humanos, da Universidade de São Paulo, fica reunido na mesma sala.

“Nós fizemos uma formação de 60 pessoas. Nesse curso a gente envolveu profissionais da saúde, da assistência social, da educação, da secretaria de trabalho, da segurança pública e usuários de Santos e região”, comenta Luciana Surjus, coordenadora geral do Programa.

O curso teve duração de 60 horas. “Agora, vamos fazer um trabalho de supervisão das ações em campo”, finaliza.