Como iniciativa para salvar peixe da extinção pôs o animal na mira de colecionadores

Animal raro nos rios, mas comum em lagos particulares, o peixe-gato-gigante vive entre a ameaça da extinção e a vida em cativeiro

Entenda como uma espécie gigante se tornou presa fácil de caçadores

Entenda como uma espécie gigante se tornou presa fácil de caçadores | Reprodução/YouTube

Em 2024, um peixe de quase um metro e mais de 100 quilos preso na catraca de uma estação de trem em Chiang Mai, na Tailândia, virou notícia mundial. 

A imagem do resgate, que exigiu seis pessoas para levantar o animal, chamou atenção para uma espécie considerada crítica de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN): o peixe-gato-gigante, um dos maiores peixes de água doce do planeta.

Já no litoral de São Paulo, um peixe invasor foi identificado nos canais de Santos e ameaça espécies nativas.

Espécie em declínio no rio Mekong

A população desse gigante começou a despencar ainda no fim do século passado, vítima da pesca predatória e das mudanças no habitat. Entre 1990 e 2010, a IUCN registrou uma queda de 80% nos indivíduos selvagens. 

Estudos recentes, como um publicado na revista Nature, mostram que barragens e obras de canalização no rio Mekong continuam prejudicando seus ciclos migratórios.

Hoje, encontrar um exemplar na natureza é raríssimo. No ano 2000, moradores do distrito de Chiang Kong capturaram dois peixes no rio Mekong. Nos anos seguintes, nenhum mais apareceu.

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Do resgate à criação em cativeiro

O governo tailandês tentou reverter a situação em 1981 com um programa de reprodução em cativeiro. Em 1983, ocorreu a primeira reprodução artificial bem-sucedida. 

Com o tempo, as técnicas se aprimoraram e o peixe mostrou grande capacidade de adaptação a tanques e lagos artificiais. Essa característica o diferenciou de outras espécies gigantes, como o peixe-espátula chinês e o pirarucu, que não se adaptam facilmente. 

Foi assim que o peixe-gato-gigante passou a atrair colecionadores e criadores particulares. Estima-se que hoje existam até 1 milhão de exemplares em fazendas, templos e propriedades privadas na Tailândia, um número milhares de vezes maior que na natureza.

Entre a preservação e o mercado

Para alguns proprietários, cuidar desses animais virou motivo de orgulho. “É uma espécie rara no mundo, e tenho 20 deles em casa”, contou ao National Geographic a veterinária Nantarika Chansue, de Bangkok.

Mas especialistas alertam que a reprodução em cativeiro não substitui a preservação no ambiente natural. O cruzamento entre poucos indivíduos pode gerar problemas genéticos, além de dificultar uma futura reintegração ao rio Mekong.

“Conservação de verdade significa devolver ao peixe o rio onde ele nasceu”, reforça Zeb Hogan, biólogo da Universidade de Nevada. “Ter milhares em cativeiro não é suficiente.”