Um artigo recentemente divulgado pela Universidade de São Paulo (USP), intitulado “Não é apagão de engenheiros(as), é apagão de condições para fazer Engenharia no Brasil”, criticou as condições atuais do país para o desenvolvimento e a capacitação dos profissionais da área. No entanto, esse cenário é mais antigo e preocupante do que parece.
Segundo dados do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), o Brasil apresenta apenas 6 engenheiros para cada 1.000 habitantes, ocupando a pior posição em comparação a outros 10 territórios, incluindo Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Coreia do Sul e Islândia.
Os levantamentos, além de alarmantes, mostram riscos reais resultantes da falta de investimentos nacionais no mercado de trabalho e no desenvolvimento acadêmico.
Economia brasileira como fator prejudicial
Segundo Aureo Figueiredo, diretor da Faculdade de Engenharia da Universidade Santa Cecília (Unisanta), o problema não reside na habilitação dos engenheiros brasileiros — que já apresentam excelente desempenho —, mas sim na desaceleração da economia e na carência de oportunidades.
“A Engenharia, no atual cenário brasileiro, tem mostrado capacidade e competência para atender às demandas do desenvolvimento nacional e internacional. Portanto, a questão de habilidades é indiscutível. Como nossa economia passa por um processo efetivo de desaceleração, observamos uma redução acentuada da movimentação industrial e do mercado de trabalho”, explica o diretor.
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O docente menciona ainda que, em consequência desse quadro econômico, muitos estabelecimentos e profissionais não conseguem competir em nível internacional, mesmo com alta qualificação.
“Há uma redução acentuada principalmente na indústria, justamente a área onde os processos tecnológicos são fundamentais e apresentam melhor remuneração. Muitas instituições brasileiras tiveram de fechar por não conseguirem competir com a produção mundial. Deste modo, a economia acaba restringindo a colocação dos engenheiros”.
Desindustrialização no Brasil
Figueiredo destaca que o Brasil enfrenta uma desindustrialização, isto é, um declínio na participação das indústrias de transformação no PIB (Produto Interno Bruto) e no mercado de trabalho.
“No Brasil, há um processo contínuo de desindustrialização. Tínhamos em Cubatão a Cosipa (Companhia Siderúrgica Paulista), um orgulho da produção siderúrgica brasileira. Entretanto, o processo de produção de aço foi descontinuado ali, assim como em outras empresas. As indústrias de fertilizantes praticamente fecharam em Cubatão, reduzindo drasticamente o polo industrial que antes existia. Logo, a Engenharia sofre com essas mudanças”, afirma Figueiredo.
Para o docente, o impacto é negativo não apenas na oferta de vagas, mas também na arrecadação de impostos e na produtividade nacional: “A fabricação de automóveis no Brasil já foi o dobro do que vemos hoje. Para os engenheiros, isso significa menos oportunidades e uma desmotivação crescente ao cursar a área”.
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Como a falta de investimentos impacta esses profissionais?
Figueiredo ressalta que os recursos científicos e acadêmicos oferecidos, no Brasil, são escassos, tornando as circunstâncias atuais ainda mais desafiadoras.
“Os investimentos governamentais são limitados, resultando em uma situação difícil de superar. A solução seria investir o máximo possível em ciência e tecnologia, principalmente em centros de pesquisa e instituições de ensino. O ideal seria alcançar o nível de recursos oferecido no exterior”.
Como resultado, o engenheiro aponta restrições na expansão da área, como a criação de patentes e projetos inovadores: “Os impactos abrangem desde a publicação de artigos até a obtenção de patentes e a qualidade das pesquisas. Esses fatores dificultam que nós, engenheiros, demonstremos nossa plena competência”, finaliza.
