Desindustrialização: O ‘vilão silencioso’ que está encolhendo os salários e o PIB brasileiro

O desempenho das indústrias nacionais apresentou uma perda expressiva. Segundo especialista, o contexto atual é preocupante e pode resultar em menores oportunidades no mercado de trabalho

O fechamento de milhares de fábricas no Brasil nas últimas décadas evidencia o avanço da desindustrialização, fenômeno que reduz empregos e diminui a participação da indústria no PIB nacional

O fechamento de milhares de fábricas no Brasil nas últimas décadas evidencia o avanço da desindustrialização, fenômeno que reduz empregos e diminui a participação da indústria no PIB nacional | Unsplash/Homa Appliances

A industrialização é um processo fundamental para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de um país. O termo define o processo social e histórico no qual a indústria se torna o setor dominante de uma economia.

Contudo, no Brasil, o contrário tem acontecido: o país apresenta um cenário de desindustrialização constante, preocupando especialistas e gerando, inclusive, menos oportunidades de emprego. 

Segundo dados do Jornal da USP, cerca de 5,5 mil fábricas nacionais encerraram suas atividades em 2020. Em um período de seis anos, 36,6 mil fábricas foram extintas, o que equivale a uma média de 17 instituições fechadas por dia.

Além disso, em 2018, a indústria de transformação representou apenas 11,3% do PIB brasileiro – quase metade dos 20% registrados há 42 anos.

Por que isso acontece?

Segundo Eduardo Lustoza, diretor de indústria da Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Santos, a desindustrialização tem alguns aspectos tecnológicos, dentre eles, o desenvolvimento e aplicações das Inteligências Artificiais (IAs) e a falta de competitividade dos produtos industrializados. 

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DesindustrializaçãoO setor industrial, tradicionalmente responsável por salários mais altos e maior geração de riqueza, tem perdido espaço na economia brasileira, impactando o mercado de trabalho e o crescimento econômico. Unsplash/Lenny Kuhne

Custos governamentais altos

Lustoza ressalta que os impostos governamentais acabam sendo os principais obstáculos à expansão de indústrias nacionais, considerando a carga fiscal e tributária. Essas circunstâncias não apenas afetam o mercado empresarial mas, simultaneamente, a renda média dos trabalhadores brasileiros. 

“O custo Brasil é um dos maiores do planeta, se não for o maior. A carga tributária sobre a folha de pagamento alcança quase 100%, resultando em valor pequeno para quem recebe e alto para quem paga – empregador. O custo da máquina pública é dos principais motivo do processo de desindustrialização e da ‘fuga’ de empresas no Brasil. 

Quanto à situação tecnológica, o especialista compara o desenvolvimento brasileiro com nações mais avançadas, um exemplo sendo a China. 

“No contexto tecnológico, a dependência da mão de obra está cada vez menor e os processos cada vez mais automatizados. Em comparação com nações mais desenvolvidas tecnologicamente, como a China, o Brasil está muito atrasado; em síntese, apresenta uma curva mais ‘suave’ de perda de postos de trabalho”.

O engenheiro também cita que há vários indicadores prejudiciais por parte do fenômeno, incluindo questões como desemprego, competitividade, improdutividade e alto custo do dinheiro, entre outras.

“A forma como se disponibiliza o crédito na rede bancários levam as empresas e investidores a uma maior taxa de insucesso. O reflexo impulsiona o trabalhador a frequentes uso do auxilio desemprego e uso dos recursos sociais do governo federal. Há, inclusive, empresas importantes que estão reduzindo investimentos no Brasil, e focando em outros países devido à falta de competitividade dos produtos nacionais”.

PIB e impostos de produtos exteriores

A participação das indústrias no PIB nacional, segundo Lustoza, apresenta quadro inevitavelmente decadente. Isso porque o comércio internacional apresenta um cenário de exportação de comodities e importação de produtos industrializados. Os índices deste setor são claros: crescente demanda de graneis sólidos, líquidos e conteinerizados, apesar da influência e distorções promovidas pelas guerras da Ucrania e Irã.

“O reflexo atual das indústrias no PIB brasileiro é, inevitavelmente, decrescente. O Brasil exporta commodities com isenção dos impostos de exportação; todavia, o contrário acontece no processo de importação, com incidência total dos impostos de importação (II, IPI, PIS, COFINS, ICMS) penalizando em ambos sentidos o consumidor brasileiro. Ou seja, o povo brasileiro paga o imposto, mas os estrangeiros não. Consequentemente, resulta em completa drenagem na circulação de capital na economia nacional “.

Para mais informações sobre as demandas internacionais de produtos, confira o quadro abaixo:

Variação de cargasAs demandas internacionais de diversos setores apresentam variações. Reprodução

Desemprego e economia em decadência

Em relação aos salários mínimos, o profissional destaca que a indústria oferece melhores oportunidades aos profissionais requerendo mão de obra especializada. Porém, a desindustrialização causa o efeito adverso, afetando o PIB e qualidade de vida da população.

“A indústria remunera melhor o trabalhador, em comparação ao mercado comercial. Com a desindustrialização, a mão de obra tem sido reduzida e descartada. Muitas pessoas e inclusive empresas estão buscando outros mercados fora do Brasil”.

O engenheiro finaliza mencionando os impactos negativos desses aspectos sobre a economia nacional, gerando queda na valorização da produção nacional e agravando as possibilidades de crescimento.

“Isso é um desastre para economia, que vem acontecendo repetindo este erro estratégico na economia desde 2004 e 2005, com ‘penalizações’ à produção e ao trabalhador. A circulação de dinheiro na economia está cada vez menor, sendo uma situação extremamente delicada a ser corrigida o mais breve possível.”