Europa pode ter invernos de até 30 °C com colapso da corrente que aquece o continente

Um eventual colapso do sistema pode provocar invernos extremos, verões mais secos, deslocamento das chuvas tropicais

No entanto, os efeitos críticos podem começar nas próximas décadas.

No entanto, os efeitos críticos podem começar nas próximas décadas. | Freepik

Um colapso do sistema de correntes oceânicas responsável por aquecer o hemisfério norte pode provocar uma “pequena era do gelo” na Europa antes do previsto, aponta um estudo internacional publicado na revista Environmental Research Letters. A pesquisa foi coordenada por cinco institutos de referência em clima.

Segundo o estudo, a Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (Amoc) — que inclui a Corrente do Golfo — pode entrar em colapso completo após 2100, caso as emissões de gases de efeito estufa permaneçam elevadas. No entanto, os efeitos críticos podem começar nas próximas décadas.

Amoc regula o clima europeu e global

A Amoc funciona como uma espécie de “esteira transportadora” de calor, levando águas quentes dos trópicos ao Atlântico Norte e devolvendo águas frias em profundidade. Esse mecanismo mantém o clima do noroeste da Europa mais ameno do que outras regiões na mesma latitude, como o Canadá.

Um eventual colapso do sistema pode provocar invernos extremos, verões mais secos, deslocamento das chuvas tropicais e até desertificação em algumas regiões. Em cenários mais severos, temperaturas podem chegar a menos 30 °C em partes da Europa.

Ponto de inflexão pode ocorrer em breve

Embora relatórios anteriores do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) indicassem confiança moderada de que a Amoc não colapsaria neste século, a nova pesquisa aponta que o sistema pode atingir um ponto de inflexão já nas próximas décadas.

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“Nas simulações, o ponto de inflexão ocorre nos mares-chave do Atlântico Norte, o que é muito preocupante”, afirma Stefan Rahmstorf, coautor do estudo e pesquisador do Instituto Potsdam.

Após esse ponto, o desligamento da circulação se torna inevitável, reduzindo drasticamente a transferência de calor para o hemisfério norte.

Simulações indicam risco mesmo com emissões menores

Os pesquisadores analisaram 38 modelos climáticos, com projeções até os anos 2300 e 2500. Em todos os cenários de altas emissões, a Amoc entrou em colapso. Mesmo em cenários intermediários ou baixos, o risco permanece em torno de 25%.

O derretimento do gelo da Groenlândia, que reduz a salinidade do oceano e enfraquece ainda mais as correntes, não foi totalmente considerado nos modelos, o que pode significar que o risco real seja ainda maior.

Europa pode enfrentar “pequena era do gelo”

Um relatório posterior, divulgado pela Universidade de Exeter e assinado por mais de 160 cientistas, alerta que o colapso da Amoc pode mergulhar o noroeste da Europa em uma “pequena era do gelo”, com gelo marinho no Mar do Norte, meses de congelamento em cidades como Londres e extremos climáticos no verão.

O fenômeno já ocorreu no passado, há cerca de 12 mil anos, antes da última Era do Gelo. Além da Europa, os impactos também afetariam a África e a América do Sul, ao desestabilizar padrões globais de chuva.