Enquanto a maioria das pessoas associa o fim de ano a comemorações, animação, risadas e momentos em família e amigos, para indivíduos como Lottie Doyle, de 23 anos, essa época pode ser um verdadeiro “horror”. Lottie sofre de misofonia, desde os 16 anos, uma condição caracterizada pela baixa tolerância a sons específicos, geralmente emitidos por outras pessoas, que desencadeiam reações emocionais e físicas intensas.
O fim de ano como Gatilho
Para os misofônicos, a festas de fim de ano são cenários de um desafio psicológico exaustivo. Sons que parecem inofensivos para a maioria, como o mastigar de alimentos, o ato de beber, o fungar do nariz ou o som de amassar de papéis de presente, podem causar pânico súbito e tensão corporal.
“Sinto um pânico repentino, meu corpo todo fica tenso e parece que estou em perigo e preciso, de alguma forma, controlar esses sons”, relata Lottie a BBC Ucrânia. A estudante Jenna, de 21 anos, compartilha o mesmo sentimento, notando que a misofonia é frequentemente mais forte perto de pessoas próximas, tornando a convivência familiar no final de ano fisicamente e psicologicamente difícil.
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“Existe uma expectativa de que você passe tempo com sua família, e eu quero fazer isso, mas é difícil física e mentalmente”, conta Jenna, também a BBC Ucrânia. “É como se eu fosse dominada por uma raiva incontrolável que pode ser constrangedora, ou começo a ficar ansiosa e choro imediatamente, e então a resposta de luta ou fuga é acionada. Pode parecer que estou sendo complicada ou dramática, mas é difícil explicar se você não passou por isso”, explica.
O que é a Misofonia e quem ela afeta?
Reconhecida cientificamente por volta dos anos 2000, a Síndrome da Sensibilidade Seletiva a Sons afeta uma parcela significativa da população. Um estudo de 2023 do King’s College London e da Universidade de Oxford estimou que quase uma em cada cinco pessoas (18,4%) no Reino Unido apresenta misofonia em um grau que causa impacto significativo, tanto em termos de sofrimento emocional quanto de prejuízos na vida cotidiana.
No Brasil, de acordo com a Universidade de São Paulo (USP), estima-se que 150 mil novos diagnósticos surjam anualmente. A UCLA Health afirma que: “Embora não seja amplamente conhecida, a misofonia é, na verdade, relativamente comum. Estima-se que entre 10% e 20% das pessoas a vivenciem. Ela ocorre com mais frequência em mulheres, com índices entre 15% e 25% de afetadas”.
A reação não é uma simples “implicância” ou “frescura”, como muitos pensam. Trata-se de uma ativação do instinto de sobrevivência, “luta ou fuga” do cérebro. As respostas comuns incluem:
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Estratégias para Sobreviver às Festas
Para muitos, a solução é o isolamento ou o uso de fones de ouvido com cancelamento de ruído durante o jantar. No entanto, a psicóloga clínica Dra. Jane Gregory sugeriu algumas técnicas mentais para ajudar a processar esses momentos em um comentário para o programa BBC Morning Live:
- Imagine outra coisa: A imaginação desempenha um papel fundamental aqui. Tente associar o som que o incomoda a algo completamente diferente. Por exemplo, imagine que o barulho de alguém sorvendo é apenas água escorrendo pela pia. Assim, você tenta ensinar ao cérebro que esse som não representa perigo.
- Transforme isso em um jogo: Tente encarar a situação com humor e fazer do som irritante parte de uma espécie de competição com a pessoa que o produz. Por exemplo, se alguém mastiga fazendo muito barulho, tente imitar o som e mastigar tão alto quanto. Ao reproduzir o ruído, em vez de sentir que ele está sendo imposto a você, você se torna um participante ativo. O elemento de competição pode ajudar a distrair o cérebro e reduzir um pouco o impacto.
- Crie uma história: Outra técnica é tentar inventar uma pequena história sobre o motivo de a pessoa estar produzindo aquele som. Se, por exemplo, alguém fica fungando, talvez esteja passando mal ou triste. Dessa forma, você muda o significado do som. Embora o ruído continue o mesmo, a sua percepção se desloca de algo irritante para algo mais neutro.
