Uma a uma, as peças alaranjadas de coral vão sendo colocadas dentro do saco. Munidos de martelo e talhadeira, os mergulhadores trabalham sem descanso sob a água, destruindo cada formação de coral-sol que encontram, espalhada como erva daninha sobre as pedras do Arquipélago dos Alcatrazes, no litoral norte de São Paulo.
Enquanto os cilindros de ar permitirem, o som ritmado das marteladas não para.
Originário do Pacífico, o coral-sol é uma espécie exótica invasora que, nos últimos 20 anos, se disseminou discretamente pela costa brasileira.
Ele chegou preso a estruturas de plataformas de petróleo, se estabeleceu primeiro no litoral do Rio de Janeiro e, hoje, já foi registrado em sete Estados, do Ceará a Santa Catarina, competindo por espaço e alimento com os corais nativos.
O arquipélago de Alcatrazes, formado por imponentes rochedos a 35 quilômetros de São Sebastião, conheceu o invasor em 2011. Mas, ali, a recepção não foi nada fácil.
A região é considerada o maior hotspot de biodiversidade marinha do Sudeste e abriga duas unidades de conservação federais — a Estação Ecológica Tupinambás e o Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago dos Alcatrazes — administradas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Em 2013, começou um programa contínuo de combate ao coral-sol, com a participação de cientistas, voluntários e ONGs.
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Força e precisão na remoção
O enfrentamento é totalmente manual: só é possível conter o avanço do coral-sol retirando cada colônia com talhadeira e martelo. “Não há outro método eficaz”, explica Kátia Capel, pesquisadora do Centro de Biologia Marinha (Cebimar) da Universidade de São Paulo, em entrevista para o jornal da USP.
O trabalho exige não só força, mas também flexibilidade. Muitas vezes, os mergulhadores precisam se posicionar de cabeça para baixo dentro de fendas ou cavernas cheias de ouriços para alcançar colônias, que não dependem de luz para viver e, por isso, crescem em locais escuros e de difícil acesso.
Perto da superfície, a força das ondas empurra constantemente contra as rochas, tornando a tarefa semelhante a estar dentro de uma máquina de lavar.
No fim de abril, a reportagem do Jornal da USP acompanhou a 5ª Expedição de Manejo e Monitoramento de Coral-Sol em Alcatrazes, com apoio do WWF Brasil. Em três dias, dez mergulhadores removeram cerca de 15 mil colônias, somando 123 quilos, em dois pontos críticos da ilha principal: Matacões e Geladeira.
Nas quatro missões anteriores, já haviam sido retiradas 275 mil colônias de duas espécies invasoras — Tubastraea tagusensis e Tubastraea coccinea. Os fragmentos variam do tamanho de uma moeda até colônias adultas do porte de uma bola de tênis.
E como estamos falando sobre invasores, conheça o peixe que também chegou ao Brasil e tem picada que causa convulsão.
Controle possível, erradicação não
Apesar de não eliminar a espécie, o manejo tem mostrado bons resultados ao limitar sua expansão no arquipélago.
“A remoção impede que o coral-sol domine o habitat”, afirma Kátia. Como as colônias ainda podem se reproduzir após serem destacadas da rocha, todo o material é ensacado e levado para descarte seguro.
Marcelo Kitahara, professor da Unifesp, contou ao Jornal da USP que estudos comparativos entre áreas onde há e onde não há manejo indicam que a retirada frequente reduz a quantidade de corais adultos e, consequentemente, o número de larvas liberadas no ambiente. Menos larvas na água significa menos colônias novas se formando.
O problema é que correntes marinhas trazem larvas de outras regiões infestadas, e o coral-sol possui alta capacidade de regeneração: qualquer fragmento de tecido preso à pedra pode gerar uma nova colônia.
É como um rabo de lagartixa que, além de crescer novamente, também dá origem a um novo animal. Em poucos dias, o pedaço forma pólipos e, em três ou quatro meses, já produz larvas.
“Por isso é fundamental a remoção contínua”, diz Kitahara. “A erradicação é inviável; será um manejo para sempre.”
Uma ameaça persistente
O coral-sol reúne todas as características de uma espécie invasora bem-sucedida: crescimento rápido, alta taxa de reprodução, dispersão eficiente, adaptação a diferentes ambientes e grande resistência.
Em condições favoráveis, como as do litoral paulista, pode dominar o espaço, suprimindo espécies nativas e alterando o equilíbrio ecológico. No auge da reprodução, uma única colônia adulta pode gerar mais de mil larvas por dia.
Em ilhas vizinhas a Alcatrazes sem manejo, a infestação é muito mais severa. A Ilha de Búzios, próxima a Ilhabela, está com grande parte dos costões cobertos pelo coral-sol. Já o Parque Estadual da Laje de Santos, ao sul, também registra preocupação devido ao avanço da espécie.
Pesquisadores investigam aspectos genéticos, fisiológicos e ambientais do coral-sol para buscar formas mais eficientes de manejo e monitoramento. “Ainda temos muito a descobrir sobre ele”, comenta Kitahara. “Talvez o problema seja maior do que imaginamos.”
