União que flutua: entenda por que as lontras dormem de mãos dadas no oceano

Comportamento exclusivo das lontras marinhas serve como estratégia de sobrevivência contra correntes marítimas e predadores em alto-mar

As lontras entrelaçam as patas, formando o que os cientistas chamam de jangadas

As lontras entrelaçam as patas, formando o que os cientistas chamam de jangadas | Wikimedia Commons/Joe Robertson

A imagem de lontras dormindo de mãos dadas é um dos registros mais carismáticos da natureza, mas por trás da fofura existe uma tática vital de engenharia social e biológica. Esse comportamento é restrito às lontras marinhas (Enhydra lutris), que passam cerca de 11 horas por dia descansando na água. 

Para evitar que a correnteza as leve para longe do grupo ou para o oceano aberto durante o sono, elas entrelaçam as patas, formando o que os cientistas chamam de jangadas (ou rafts).

Essas jangadas funcionam como tapetes flutuantes que garantem a segurança coletiva. Além de manter o grupo unido, a formação ajuda na conservação de energia e no aquecimento mútuo. 

Curiosamente, esses grupos costumam ser segregados por gênero e podem reunir desde dez até centenas de indivíduos sem qualquer parentesco direto, provando que a cooperação é a base da sobrevivência da espécie.

A ciência da flutuabilidade e o uso das algas

Lontras possuem a pelagem mais densa do reino animalLontras possuem a pelagem mais densa do reino animal / Imagem gerada por IA

Diferente de focas ou baleias, as lontras marinhas não possuem uma camada de gordura para isolamento térmico ou flutuação. O segredo está na pelagem, a mais densa do reino animal, com até um milhão de fibras por polegada quadrada.

Esse pelo retém bolhas de ar próximas à pele, criando uma flutuabilidade natural que permite ao animal boiar sem esforço enquanto dorme.

Quando as mãos dadas não são suficientes, ou quando as mães precisam caçar e deixar seus filhotes, entra em cena uma “âncora” natural: as algas marinhas (kelp).

Berçário seguro: As mães enrolam os filhotes nas algas presas ao solo marinho para que eles não derivem.

Escudo contra predadores: Os densos bosques de algas funcionam como uma barreira física contra tubarões, que têm dificuldade em navegar na vegetação compacta.

Vigilância compartilhada: Mesmo em repouso, as jangadas mantêm alguns indivíduos em estado de alerta, funcionando como sentinelas contra qualquer aproximação de predadores.

Supergrupos

Recentemente, o comportamento social das lontras apresentou números impressionantes. No início de 2023, “supergrupos” com mais de 200 animais foram avistados na costa da Califórnia, possivelmente uma resposta defensiva a grandes tempestades na região. 

Quando decidem ir para terra firme, elas preferem ilhas isoladas e recifes, mantendo distância de predadores terrestres como ursos e lobos.

Apesar da recuperação populacional após quase serem extintas pela caça predatória no século passado, as lontras marinhas continuam classificadas como uma espécie ameaçada. 

Atualmente, os maiores perigos não são mais os caçadores de peles, mas sim os vazamentos de óleo, que destroem a capacidade isolante do pelo, e as redes de pesca de fundo. Preservar o hábito das “mãos dadas” é, portanto, garantir que uma das conexões mais fascinantes do ecossistema marinho continue flutuando.