Adão Silva Gonçalves, “Pisa Macio” para os mais velhos, ou “Dandão” para os mais chegados, é o tipo de gente que você olha e já se encanta. Sorriso largo, simpatia e humildade são as suas principais características. Casado, e pai de três filhos (um já falecido), sempre levou uma vida de muita simplicidade, porém digna. Foi no sonho de uma das filhas que viu mudar o rumo da sua história.
A jovem queria ingressar na universidade. Naquele ano (2000) nasciam os primeiros núcleos do Educafro. “Ela trabalhava e, além da aula, precisava participar de alguns encontros e atividades. Para que ela não perdesse a vaga no curso, comecei a representa-la nos eventos e a participar das aulas”, conta.

O envolvimento foi tão grande que Adão passou de pai a voluntário. Limpava, preparava café, organizava as escalas dos professores voluntários, fazia de tudo um pouco no núcleo Valongo, em Santos. “Comecei a participar até de debates e encontros em outros municípios e estados”, disse. Ele tratava os outros alunos como se fossem filhos também. “Me importava com as carências que os levavam a desistir no meio do caminho”, afirma.
A filha conseguiu uma bolsa de estudos e se formou em Administração de Empresas, porém era preciso mais: convencer o pai de que ele também poderia voltar a estudar. Incentivado por ela, aos 56 anos Adão novamente voltou a encarar os livros e cadernos. Assim, como os alunos que ajudava, também começou a participar do curso promovido pelo Educafro. “Eu não tinha o sonho de cursar uma universidade, mas de tanto que ela falou e vendo aqueles meninos estudarem me senti motivado”, revela.
O resultado do esforço veio, um ano depois, na forma de aprovação no vestibular, e de uma bolsa para o curso de Serviço Social na Universidade Católica de Santos (Unisantos). “Foi uma alegria. Nunca passou pela minha cabeça entrar na faculdade, até porque não tinha condições para arcar com as despesas”, afirma.
Adão era o mais velho da turma, mas nem por isso se sentiu distante dos outros alunos. A experiência de vida e os poucos cabelos brancos o ajudaram a entrosar-se rapidamente com os jovens. “Eles eram mais didáticos e eu tomava mais a iniciativa. O que não tinham coragem de perguntar, eu perguntava”, lembra.
Com o diploma na mão, Adão decidiu prestar concurso público para Assistente Social na Prefeitura de São Vicente, em 2011. Entre centenas de candidatos, o recém-formado ficou com o 22º lugar.
Aos 61 anos foi chamado para assumir o cargo, e atualmente trabalha em um abrigo da Cidade. “Agora tenho segurança e estabilidade para aplicar na prática o que aprendi na teoria, e também ter uma melhor condição financeira”, disse.
Mas para quem pensa que ele parou por aí, se engana. Adão não quer se aposentar tão cedo. Pretende seguir explorando seu potencial, e induzindo outras pessoas a trilharem o caminho do conhecimento. “Sempre que converso com alguém pergunto se a pessoa está estudando. Digo que o estudo nos leva para lugares aos quais nunca imaginamos chegar”, disse.