O Santos precisa de um presidente que tenha a experiência empresarial atrelada ao conhecimento do futebol. Esse é o pensamento de Wladimir Mattos, que afirma contar com seus anos no ramo marítimo, vivências na Portuguesa Santista e times da região para participar das eleições presidenciais no Santos Futebol Clube. A Reportagem do Diário do Litoral recebeu o candidato na última segunda-feira (4).
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Com grandes expectativas para eleição do clube, que acontece no próximo sábado (9), o candidato explicou seus projetos e o seu planejamento para o próximo triênio.
DL – Por conta dos últimos resultados e até pela campanha em todo o 2023, o seu planejamento antes das eleições leva em consideração a Série A ou B?
Wladimir Mattos – Olha o planejamento do próximo ano, ele serve tanto pra série A quanto pra série B. A questão é quanto você vai investir no perfil dos atletas. O perfil dos atletas que disputam a primeira divisão é um e dos atletas da série B é outro. Eu acho que o clube vai sim ficar na série A. Precisamos pensar positivo. Mas eu queria te dizer o seguinte: em relação a reforços, a eleição do Santos Futebol Clube, ela acontece em momento atrasado. Os outros clubes, a maioria já começaram seus planejamentos para 2024. No próximo ano nosso pensamento em função das limitações financeiras é procurar ser assertivo na escolha desses atletas, obviamente nós teremos saídas de sete atletas que acabam o contrato agora no final do ano, repô-los com jogadores que cheguem para resolver o problema.
DL- O Campeonato Brasileiro conta com diversos times que são SAFs. O que o senhor pensa a respeito dessa possibilidade?
Wladimir Mattos – Eu não quero parecer paradoxal, tá? Eu diria para você que nenhum desses modelos servem para o Santos. E por que não serve? Porque elas foram constituídas em momentos de fragilidade desses clubes. A SAF já pensando em formar e manter um elenco competitivo e que dispute títulos, ela é o modelo que mais se encaixa ao Santos Futebol Clube. O crescimento orgânico de receitas dos clubes que têm o modelo associativo, eles não crescem na velocidade necessária para fazer com que o Santos se equipare a equipes que já bateram na casa do bilhão, como Flamengo, Palmeiras e Corinthians. Então, para que o clube seja competitivo nos campeonatos, que ele venha disputar a SAF é uma questão essencial.
DL – Existe um momento ideal para implementar essa ideia?
W.M – A gente não considera a SAF no ‘afogadilho’ nesse momento de fragilidade do Santos. Acho que algumas coisas precisam ser vistas antes. Primeiro a gestão profissional, segundo a organização financeira, terceiro devolver o mínimo de competitividade para essa equipe, quarto colocar de pé a arena, quinto é o fortalecimento da marca Meninos da Vila e por último precisamos encorpar o quadro associativo do clube. Feito isso tudo, passamos a pensar na SAF, aquela que busque um parceiro que se preocupe muito mais com o retorno institucional do que o financeiro com vendas de jogadores, por exemplo, com vendas de jogadores. E que também respeite o voto de qualidade do Santos Futebol Clube, que tenha sistema de pesos e contra pesos, travas e gatilhos que garanta o desempenho desportivo, que garanta o crescimento constante da marca. E por último, e tão importante quanto, uma cláusula de recompra. Não deu certo eu compro de volta a minha parte e acabou a sociedade.
DL- Muita gente fala do modelo do Bayern e de outros clubes europeus como o modelo a ser seguido. Você concorda com essa lógica?
W.M – Se você olhar para a ponta do Campeonato Brasileiro vai encontrar um mecenato, vai encontrar um clube que depende da força da sua torcida, que é o caso do Flamengo, você tem uma SAF, que é o caso do Botafogo, você tem o clube global e empresa que é o Bragantino, você tem o Grêmio, que é um regime associativo e você tem o Atlético Mineiro que está se transformando agora. O que esses clubes têm em comum? A gestão profissional. Essa é a diferença. O modelo do Bayern, o modelo do Sporting, eles vão funcionar e vão servir pro Santos se o clube tiver a governança na frente, se o Santos tiver gestão profissional, se o Santos não tiver modelos institucionais e estatutários estabelecidos que mudem esse caminho tortuoso do Santos. O clube há mais de 50 anos anda de lado. Começa com Athiê Jorge Coury comprando um hotel cassino falido e passa por momentos em que ninguém quer ser presidente do Santos Futebol Clube, chegamos ao ponto, de pelo menos o que se diz, de ter tido um presidente corintiano, passamos por processos de impedimentos, de reprovação de contas, expulsões, contratações absurdas. Isso precisa acabar no Santos. Isso é irracional. Isso não funciona. E aí independe o modelo que você tem de administração. Ainda que imperceptível aos olhos do torcedor, da arquibancada. Porque pra ela [a torcida] importa quando a bola entra, é preciso mudar essa situação, essa forma de administrar quem nos colocou nesse atoleiro que nos encontramos.
DL- O senhor tocou no assunto de o Santos ter tido um presidente que torce para um outro clube. A sua gestão se preocupa com profissionais que torcem para outros clubes?
W.M – Eu acho que isso é sempre um plus. Não é uma condição, mas sempre bom ter por perto na sua gestão alguém que de fato se interesse e tenha essa ligação, uma relação. Um filho, ele pode ser bom numa gestão de uma empresa e é melhor ainda pro pai que o colocou pelo fato dele ser filho, então eu acho que é útil, mas não prioritário.
DL- Como evitar a repetição da campanha pifia do Paulistão de 2023? Até porque houve o adiantamento das verbas do ano que vem
W.M – Está muito claro que o próximo ano vai ser um ano desafiador para qualquer um que venha a ser presidente. De novo eu vou dizer pra você que sem dinheiro em caixa você não pode errar nas suas contratações. Por isso é muito importante que haja um respeito para aquilo que nós chamamos de modelo esportivo. Isso passa pela contratação do profissional que vai ficar encarregado pela coordenação do futebol, pela comissão técnica, pela comissão médica, pela análise de desempenho, pelo departamento de scout. Então, quando você tem uma equipe que é totalmente integrada e que respeita esse modelo esportivo, propositivo, equilibrado, técnico e vistoso que é o que marca o Santos ao longo dos últimos 70 anos. Eu acho que esse caminho fica mais curto. E todos sabem que esse teórico refresco no caixa deve vir com a venda do Marcos Leonardo. Então acho que o próximo presidente terá que ter a sabedoria de honrar os compromissos assumidos pela atual gestão, principalmente o RCE, que é o regime de centralização, descentralização das dívidas de Santos Futebol Clube, o PROFUT, o pagamento dos impostos e claro, as dívidas correntes.
DL – Olhando para a parte esportiva em relação ao futuro do Marcos Leonardo, o senhor quer conversar com ele? Corre o risco dele jogar por outra equipe no Brasil?
W.T – Questão de conversar com o atleta eu acho que é obrigação de qualquer um. Mas ele já manifestou o desejo de não mais atuar pelo Santos a partir da próxima janela. Aliás existe uma cláusula no contrato que o libera caso chegue uma proposta de determinado valor. Isso tá contratual e isso ele já queria ter saído na metade do ano, mas isso é o futebol também. Gostar como torcedor? Claro que sim, claro que eu gostaria que ele ficasse mas se o desejo dele sair, fica difícil segurar. Existem os valores nacionais e internacionais, e o nacional é muito maior.
DL- E o Marcelo Fernandes fica?
W.T – Nós acreditamos no modelo de jogo. Eu também acredito que não exista um santista hoje vivo satisfeito com o que tem visto dentro de campo. Falta um algo mais no trabalho do Marcelo Fernandes. Eu não posso ser injusto a ponto de jogar a responsabilidade nas costas dele até porque ele herdou um elenco, mas se eu tiver que fazer uma uma avaliação a partir daquilo que eu vi, eu acho complicado a permanência dele.
DL – O santista tem o sonho de ver seu clube do coração jogando em uma nova arena. Como sua gestão enxerga essa ideia?
W.T – Com um olhar com responsabilidade e senso de urgência. O Santos precisa de um dos pilares estratégicos para o clube que nós queremos. Uma vez presidente, nós vamos nos reunir com a WTorre para entender a situação. Queremos saber todos os detalhes do projeto porque houve alterações e as razões delas. Mas é um assunto que para gente é muito claro, o Santos precisa dar continuidade nesse processo. Vale lembrar que a WTorre tem expertise na operação de uma arena e o Santos entende de futebol, a César o que é de César. Se nós temos uma empresa que pode entregar um produto lucrativo pro Santos Futebol Clube, a pergunta é, por que não fazer com ela? Então acho que a nossa, a prioridade é essa e que o torcedor e o associado não se engane com o canto da sereia quando dizem que é possível formar um punhado de quatro, cinco empresas que não têm expertise nenhuma na construção de estádio.
DL – Jogar na capital paulista é uma solução?
W.T – Nesse momento, eu diria para você que independente da Vila, nós voltaríamos a jogar em São Paulo. Sim, é necessário, o Santos precisa conversar com o Pacaembu que seria na minha opinião o melhor local para acolher e receber a torcida santista. E também é uma forma, o Santos precisa melhorar a sua arrecadação. Então, a necessidade de jogar fora da Vila Belmiro em função da sua alimentação de capacidade, os problemas que nós temos com as cadeiras. Enfim, então só se tem uma necessidade de melhorar as suas receitas. Isso se dará jogando em São Paulo.
DL- O senhor tem algum projeto para potencializar a venda dos garotos da base?
W.T – Nós queremos transformar a base numa marca reconhecida em cenário internacional como a melhor do Brasil. Hoje, o Santos não é mais e, a partir daí, criar um modelo de negócio que permita o Santos Futebol Clube a arrecadar com esses jogadores. E quais jogadores? Nós fizemos um estudo empírico, abrangendo o período de 2013 e 2022 e nós identificamos que clube poderia ter faturado com jogadores, que não foram aproveitados na equipe principal, R$ 200 milhões. Para isso, nós precisamos obviamente da estrutura física que passa pela construção do centro de treinamento e outros projetos estruturantes. Primeiro, implementar processos que melhorem a captação de atletas no Santos Futebol Clube e não apenas a captação, a formação desses atletas. E isso passa pela expansão da pirâmide, em aumentar o corpo de observadores, isso passa por capacitá-los, isso passa por conversar com outros clubes formadores do estado de São Paulo para ter preferência na escolha desses jogadores, como uma espécie de Draft. Enfim, é uma das nossas ideias além de expandir as redes de escola, as franquias e o contato com os trabalhos com entidades governamentais. Nós pretendemos implantar, implementar nos centros de captações avançados no Centro-Oeste, no Nordeste e por todo o Brasil.
DL- Qual foi o principal erro dessa atual gestão?
W.T – Negligenciar o futebol. Futebol é o coração do Santos. Essa gestão ela teve um olhar financeiro sobre o negócio Santos Futebol Clube. Esse é um pecado que deixa marcas profundas nessa administração. O futebol nunca poderia ter sido negligenciado da forma com que foi. E depois veio o desespero e aí se passou pra contratações que não fizeram menor sentido, tanto de atletas, como de diretores e como de treinadores. Não tem absolutamente nada a ver com a história e tradição do Santos Futebol Clube.
DL- A sua gestão já trabalha com alguns jogadores? Se sim, quais nomes?
W.T – Vou falar novamente do modelo esportivo. Para nós o que vem acima de tudo é um modelo esportivo e, para isso, nós contamos com o apoio, a implementação desse modelo esportivo de quem vier a ser o nosso diretor esportivo e, antes que você me pergunte, eu já te respondo: pode ser o Galo. Eu até acredito que o Galo já tem em mãos um mapeamento de que, sob a ótica dele, possam possam agregar ao Santos Futebol Clube. Então sim, mas eu particularmente não tenho nenhum jogador mapeado. Tenho a minha percepção de quem pode ser servir pro Santos Futebol Clube, mas isso é um coletivo. Isso precisa ser um trabalho coletivo.
DL – Porque você é o nome certo para o Santos?
W.T – O Santos precisa de um presidente que tenha, não apenas o conhecimento na gestão empresarial, mas, principalmente, o convívio no futebol. E eu posso dizer que eu tenho essas duas competências, eu sou empresário, atuo no setor marítimo há mais de 40 anos, 30 deles na condição de empresário, e também a minha experiência no futebol, ainda que administrando clubes pequenos como o São Vicente e a Portuguesa e eles me deram a base para entender um pouco do futebol, e o que é isso, entendimento, é como você se relaciona com empresários, como você se relaciona como jogadores, como você se relaciona com autoridades, como você se relaciona com a federação, como você relaciona com a arbitragem, tudo isso é fundamental para que você não seja envolvido por decisões que você não possa ter a sua própria opinião. Você precisa dominar o fato, e, fora isso, eu volto a insistir naquilo que vi faltando nas propostas dos demais candidatos, não se fala em mudar o modelo de gestão, aliás, fala em acabar com o comitê de gestão e eu digo o contrário. O Santos precisa criar uma forma de aperfeiçoar ele, criando diretorias para cuidar do futebol, do marketing e do jurídico. Talvez algumas mudanças possam, num primeiro momento, ser imperceptíveis ao olho do torcedor de arquibancada, mas eu tenho certeza que no fim, nós vamos conseguir recuperar o Santos Futebol Clube.
