Um dos maiores clubes de futebol do Planeta perdeu, ontem, uma parte da sua história. Integrante do ataque dos sonhos do Santos Futebol Clube, na década de 60, Antônio Wilson Vieira Honório, o eterno ídolo Coutinho, foi velado na Vila Belmiro e sepultado no Memorial Necrópole Ecumênica. Pelé, companheiro de tabelinhas fenomenais, não apareceu para se despedir do companheiro de campo. Mandou apenas uma coroa de flores.
Nascido em Piracicaba, chegou ao Santos aos 15 anos. “Eu já estava aqui quando ele apareceu. É meu amigo de infância. Perdi meu amigo”, disse Manoel Gomes Lima, o “seo” Maneco, de 72 anos, zelador da Vila, que trabalha no clube desde 1958.
O historiador do Santos FC Guilherme Gomez Guarche explicou a origem do apelido do maior centroavante da história do Peixe.
“Lá em Piracicaba, a mãe dele o chamava de Cotoco ou Cotoquinho, porque ele era pequenininho. Quando chegou aqui o radialista Ernani Franco começou a chamá-lo de Antoninho, para homenagear o Antoninho Fernandes, ex-jogador e técnico do clube, mas ele não gostou do apelido, pois achava que viraria vítima de chacota quando fosse para Piracicaba. Então transformaram o Cotoquinho em Coutinho e ficou assim”, disse Guarche. Coutinho vestiu a camisa do Alvinegro em 457 partidas e fez 368 gols.
Guarche ficou próximo de Coutinho quando ele foi treinador do time juvenil do Peixe, em 1979. “O time conquistou o Campeonato Paulista. Eu era presidente da Sangue Santista (torcida organizada) e entregamos um troféu para ele aqui na Vila Belmiro”. Depois disso, os encontros passaram a acontecer na Padaria Santista, mais conhecida como a Padoca. “Ele gostava de uma cerveja. Era marrento e não gostava de tirar fotos com mais jovens. Dizia que não entendia para que tirar foto se eles não o tinham visto jogar”.
Carlos Fernandes Schinner, autor da biografia “Coutinho, o gênio da área” lembrou que não viu o centroavante jogar, mas ainda acompanhou os últimos quatros anos de Pelé. Para Schinner, Coutinho teve a carreira interrompida pelos problemas do jogador com a balança e cirurgias no joelho. “Tenho certeza em afirmar que foi um fora de série na história do futebol. Infelizmente, a geração do videogame está acostumada a ver Messi e Suarez, Neymar e Mbappé, nunca vai saber o que foi Pelé/Coutinho”.
Sobre o jeito arredio de Coutinho, Schinner disse que ele chegou com menos de 15 anos ao Santos, sem estrutura familiar. “É até natural que ficasse na defesa, diante do interesse pela vida dele”. Schinner destacou que morava na mesma rua que Coutinho, no Boqueirão, e que conhece Rosângela, filha do ex-jogador. “Ela fez o elo para que pudesse registrar a história dele”.
Relação
O escritor confirmou que a relação entre Coutinho e Pelé não era o mesmo sucesso fora de campo como era dentro dele. O problema começou com a divisão de prêmios. O auge foi em uma propaganda de um refrigerante. “Apareciam Pelé, Coutinho e Dorval. O Pelé recebeu um caminhão de dinheiro pelo anúncio. Coutinho e Dorval quase nada. A relação deles ficou estremecida depois disso. Isso foi deixando o Coutinho ressentido”. No livro, Schinner , por outro lado, publica uma carta de Pelé a Coutinho, onde o Rei do Futebol chama Coutinho de “irmão”.
“Coutinho é o primeiro mágico do quinteto a ir embora”
Para o ex-ponta Edu, Coutinho foi um “professor, um pai” para ele. Com o ex-centroavante, o atacante santista aprendeu a fazer gol com mais facilidade. “Ele me disse que não precisava bater forte, só tirar do goleiro. Vai deixar muita saudades e brilhar onde estiver”, disse.
O ex-jogador Everaldo, destacou que Coutinho não era o maior centroavante do Brasil, mas, sim, do mundo. “Não tenho nenhuma dúvida que se ele jogou ao lado do melhor do mundo, ele é o segundo melhor do mundo. Ele sabia muito e se tivesse mais oportunidades poderia ter sido um dos maiores técnicos do Brasil”.
Ele citou que do quinteto mágico Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe, o primeiro mágico foi embora. “Vai deixar uma enorme lacuna. Era uma pessoa espetacular”, lembrou.
O ex-ponta-esquerda Pepe falou da morte do amigo. “Nossa amizade continuou depois que paramos de jogar. Santos está de luto, perdeu um jogador extraordinário e uma figura humana incrível. Estamos muito triste, fez parte do nosso grande ataque, que me orgulho e eu era o único cara pálida de uma crioulada fantástica”.
Pepe lembrou das tabelinhas entre Pelé e Coutinho. “As tabelinhas com Pelé ficaram marcadas para sempre. Nasceram ali as tabelas no futebol. Santos teve outros grandes centroavantes como Pagão e Toninho Guerreiro, mas Coutinho foi o maior de todos. Não havia tempo ruim. Uma lacuna difícil de ser preenchida e nosso coração está de luto, o Santos também. Nosso amigo de sempre merece descansar em paz”.
Alegre
Pepe aproveitou para contar uma história sobre o amigo. “Coutinho era um cara alegre. Estávamos em uma excursão na Alemanha. Em uma noite de folga, fomos dançar um pouco num clube. Ele dançava, eu não. Tínhamos direito a uma música. Garçom recolhia para a orquestra. Pedi a minha e tocou. E meia hora depois a do Coutinho não. Ele pediu “Neguinho e a Senhorita” (da Elza Soares). Não ia tocar nunca (risos). A gente se sentia bem ao lado dele. Um moleque de 15, 16 anos, mas com categoria. Quem mais entendeu o Pelé, só pelo olhar. Chegou a hora dele. Uma perda irreparável”.
Pelé
A assessoria de imprensa de Pelé divulgou uma nota oficial sobre a morte de Coutinho “É uma grande perda. A tabelinha Pelé-Coutinho fez o Brasil ficar mais conhecido no mundo todo. Tenho certeza que um dia faremos tabelinha no céu. Minhas condolências à família”. O Rei do Futebol, sempre avesso a velórios, alegou compromissos comerciais na Capital e não veio a Santos.
