O segredo de mais de R$ 100 mi na venda de ilhas que garantiu a Groenlândia à Dinamarca

Entenda como uma negociação de 25 milhões de dólares com os EUA em 1917 mudou o mapa do Caribe e o futuro do Ártico.

Acordo bilionário em valores atuais envolveu o medo da Alemanha e a segurança do Canal do Panamá durante a Grande Guerra.

Acordo bilionário em valores atuais envolveu o medo da Alemanha e a segurança do Canal do Panamá durante a Grande Guerra. | Reprodução/Wikimida Communs

Em 1917, no meio da Primeira Guerra Mundial, a Dinamarca fez uma troca estratégica, vendeu seu arquipélago no Caribe – as ilhas de São Tomás, São João e Santa Cruz – aos Estados Unidos por 25 milhões de dólares, mais de R$ 130 milhões de reais. Em troca, garantiu o controle total sobre a Groenlândia.

Na virada do século XX, essas ilhas, conhecidas como Índias Ocidentais Dinamarquesas, já não eram tão valiosas. A economia do açúcar entrava em declínio, desastres naturais eram comuns e manter uma colônia do outro lado do oceano custava caro.

O que realmente forçou a decisão foi a política internacional. A Alemanha demonstrava interesse na região, e os Estados Unidos queriam evitar que qualquer potência europeia se estabelecesse perto do Canal do Panamá, inaugurado pouco antes.

As primeiras conversas sobre a venda aconteceram em 1902, mas foram barradas no parlamento dinamarquês. A guerra mudou tudo. Com a Dinamarca neutra, ficou difícil administrar uma colônia tão distante, e os protestos locais chegaram a exigir o envio de um navio de guerra para acalmar os ânimos.

Em segredo, Washington e Copenhague retomaram as negociações. Quando o acordo veio a público em 1916, causou polêmica. A solução foi realizar o primeiro referendo da história dinamarquesa, em dezembro daquele ano. A população aprovou.

Em 1º de abril de 1917, as ilhas passaram oficialmente para os EUA, tornando-se as Ilhas Virgens Americanas. A Dinamarca, com os 25 milhões de dólares, reforçou sua soberania sobre a Groenlândia, um território que, no futuro, se mostraria estratégico.

Algumas marcas do período dinamarquês ainda permanecem nas ilhas: a moeda local só foi totalmente substituída pelo dólar em 1934, e até hoje se dirige do lado esquerdo das estradas, mesmo com carros de volante à esquerda.

Esse episódio histórico ganha novos reflexos hoje, quando a Groenlândia volta a ser tema de interesse geopolítico. Mas, diferentemente de 1917, a Dinamarca agora afirma com clareza que a Groenlândia não está à venda. O mundo mudou, e com ele, a forma de defender um território.