A inflação tem feito o brasileiro se comprometer menos com o consumo sustentável. Ao menos, é o que revela a 4ª edição do estudo “Who Cares, Who Does?”, da Kantar, publicado recentemente.
O estudo divide os consumidores em três grupos de relação com o meio ambiente: EcoDismissers, que têm pouco ou nenhum interesse pelos desafios ambientais do planeta e não estão fazendo nada para mudar esta postura; EcoConsiderers, que tomam algumas medidas para reduzir seu impacto ambiental; e EcoActives, que trabalham constantemente para diminuir os níveis de resíduos plásticos e para proteger o meio ambiente.
No último levantamento, pela primeira vez, os EcoActives estão em declínio e os EcoDismissers estão aumentando globalmente, sendo que no Brasil os actives representam atualmente apenas 5% dos consumidores, 3 pontos percentuais a menos do que em 2021; enquanto os dismissers chegou a 80% este ano, um salto de 10,5 pontos percentuais em relação a 2021.
Allan Pscheidt, doutor em biodiversidade e professor no Centro Universitário FMU – Foto: Arquivo PessoalBrasil mais pobre
Segundo o estudo, os números são reflexo do atual momento da economia. Com os preços mais altos, os brasileiros têm que fazer escolhas para equilibrar o orçamento e acabam deixando de lado as preocupações com produtos sustentáveis, que geralmente são mais caros que os que não têm esse apelo.
O biólogo Allan Pscheidt, doutor em biodiversidade e professor no Centro Universitário FMU, concorda e lembra que o valor de muitos desses produtos é impraticável para uma boa parcela da população.
“Uma escova de dente, de marca conhecida, em embalagem com três unidades, chega a custar metade que uma escova feita de bambu com cerdas de carvão da mesma marca. Para muitas famílias a alternativa sustentável representa um aumento significativo nas despesas do mês e, infelizmente, muitas não tem essa opção. A miséria é ainda muito grande no país, e sustentabilidade efetiva só ocorre quando atinge todas as camadas da população, senão se torna posição social apenas, entrando na onda do greenwashing, que, em linhas gerais, seria o “faz de conta que estou ajudando o planeta’.”
Falta cultura ambiental
O engenheiro ambiental Robson Costa, professor da Estácio, lembra que, não só os preços, mas a falta de cultura ambiental e conhecimento também impactam nos hábitos de consumo sustentável do brasileiro.
“Um dos fatores é cultural, como os canudos, que apesar de já serem fornecidos de materiais biodegradáveis, ou mesmo de metal, ainda não são utilizados pela maioria, que preferem a comodidade e o baixo custo de canudos de plástico. Também devemos destacar a falta de conhecimento e mesmo de propaganda destes produtos, pois se formos ao supermercado, sua exposição é pequena e geralmente sem atrair os consumidores’, comenta.
Para o professor, para mudar a situação é preciso investir em educação ambiental. “É preciso conscientizar que a sustentabilidade está na mudança de hábitos, desde o mais simples, como fechar a torneira enquanto escova os dentes a atitudes mais cidadãs, como não utilizar sacolas plásticas no supermercado, que aliás, mesmo sabendo-se de seus custos ambientais, são compradas por muita gente.”
Além disso, Costa acredita que o governo precisa fazer a sua parte. “O país possui uma das melhores legislações ambientais do mundo, mas peca na divulgação, na comunicação e, principalmente, na fiscalização”, diz.
Já Pscheidt chama atenção para a necessidade de incentivos fiscais. “É necessário ter mais incentivos fiscais para a comercialização de produtos sustentáveis, bem como campanhas para conscientização sobre o bem-estar coletivo.”
Robson Costa, professor da Estácio – Foto: Arquivo PessoalO que você pode fazer?
Para os professores, governos e empresas têm uma parcela muito grande de responsabilidade na perpetuação do consumo de produtos sustentáveis e na adoção de hábitos sustentáveis. Porém, o indivíduo também deve fazer sua parte na briga a favor do meio ambiente.
Além do consumo consciente, uma forma de fazer isso é sabendo calcular sua pegada de carbono, que nada mais é que o impacto que cada pessoa causa no planeta baseado nas emissões de gases de efeito estufa (GEE) que ela produz ao longo da sua vida, direta e indiretamente.
Pscheidt explica que, em média, cada pessoa produz cerca de quatro toneladas de carbono por ano, mas em países como EUA e China isso pode chegar a 16 toneladas por pessoa. O número ideal, diz ele, seria de apenas duas toneladas por pessoa ao ano.
Para saber qual é a sua pegada de carbono, basta acessar uma das diversas calculadoras disponíveis, como a ONU, da WWF e da organização Iniciativa Verde. De modo geral, todas levam em consideração o consumo de energia, gás, carne, tamanho da moradia, desperdício de lixo, transporte individual e coletivo, aéreo ou terrestre.
Caso o resultado fique acima do ideal, Costa dá as seguintes dicas:
– Cultive de hortas e produtos sustentáveis, sem emprego de mecanização;
– Prefira o transporte coletivo, ou utilização de bicicletas e patinetes;
– Sempre utilize produtos de baixo consumo elétrico, lâmpadas de Led, desligue os produtos da tomada;
– Não necessitamos de embalagens. Esse é um habito muito difícil, mas transformador a quem aplica.
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