‘Ligadona em Você’: Como a loja preferida dos brasileiros desapareceu das cidades

Com forte presença na TV principalmente no horário nobre, as propagandas da Arapuã eram sempre marcantes por enfatizar as facilidades de pagamento

Uma das centenas de lojas da Arapuã, que facilitava (e muito) os pagamentos

Uma das centenas de lojas da Arapuã, que facilitava (e muito) os pagamentos | Imagem ilustrativa gerada por IA/Gemini

Houve um tempo em que o Brasil não falava em “clicar e comprar”, mas sim em “passar na Arapuã”. Nos anos 90, a rede era uma força da natureza. Com o jingle “Ligadona em Você” martelando na cabeça dos brasileiros e letreiros em neon que iluminavam as principais esquinas do país, a empresa não apenas vendia eletrodomésticos: ela vendia o sonho da modernidade em 24 vezes no carnê.

A Arapuã chegou a ser a maior varejista de eletrônicos do Brasil, batendo de frente com qualquer concorrente. O sucesso era tão estrondoso que a empresa cruzou fronteiras, tornando-se uma das poucas brasileiras com ações negociadas na Bolsa de Nova York. Mas o que parecia um crescimento infinito escondia uma armadilha invisível.

Assistência técnica da Arapuã no Centro de Santos, nos anos 80/90 – Foto meramente ilustrativa gerada por IA/Gemini

O erro de um bilhão de reais

A estratégia da Arapuã era agressiva: ela funcionava mais como um banco do que como uma loja. Quase todas as vendas eram feitas no crediário próprio. Enquanto a economia ia bem, o dinheiro fluía. Porém, em 1997, a “Crise dos Tigres Asiáticos” atingiu o mundo, e o governo brasileiro, para segurar o real, elevou os juros para surreais 40% ao ano.

O golpe foi duplo e fatal. De um lado, os clientes, sufocados pela crise, pararam de pagar as prestações. Do outro, a Arapuã, que pegava dinheiro emprestado para financiar esses mesmos clientes, viu sua dívida bancária explodir da noite para o dia. O império do “ligadona” entrou em curto-circuito.

A Arapuã era imbatível em facilitar o pagamentos dos seus produtos – Foto meramente ilustrativa gerada por IA/Gemini

O longo adeus

O que se seguiu foi uma agonia que durou décadas. A empresa pediu concordata em 1998, tentou se reinventar vendendo de tudo (até produtos de conveniência e utilidades domésticas), e fechou centenas de unidades. O processo se arrastou nos tribunais por mais de 20 anos, entre tentativas de recuperação e decretos de falência revogados.

O capítulo final só foi escrito em 2020, quando o STJ selou o destino da marca definitivamente. Hoje, os prédios que abrigavam as lojas deram lugar a farmácias ou igrejas, e a Arapuã vive apenas nos registros comerciais e na memória de quem ainda guarda aquela TV de tubo ou o rádio que foi o orgulho da sala de estar.

Outras lojas que também fecharam

Uma loja também muito lembrada pelos brasileiros e que acabou fechando as portas é a Mappin.

E, mais recentemente, foi a vez da Daslu, a loja mais luxuosa do Brasil, de ficar apenas na memória dos consumidores.