Pensar o aluno como um ser em desenvolvimento integral e que fará a diferença no mundo após o processo de ensino. A ideia é o cerne da pedagogia waldorf, baseada na antroposofia do austríaco Rudolf Steiner.
No modelo, o ser humano vai além do material e se desenvolve em três fases desde o momento do nascimento até os 21 anos. “Entendemos que é preciso desenvolver o ser humano de forma integral e a arte é um dos caminhos. A pedagogia waldorf acredita que o trabalho manual tem uma relação estreita com o pensar e por esse motivo ele precisa ser incentivado durante todo o processo de aprendizagem”, conta Maria Cristina Formozinho, psicóloga e coordenadora da Waldorf Santos, na Ponta da Praia, uma das escolas que trabalha com o sistema na região.
Conhecido como o defensor da sensibilidade, Steiner desenvolveu um modelo de educação que não prima pela qualificação profissional e sim pelo desenvolvimento das artes e da consciência global. “Os alunos waldorf são seres humanos indescritíveis, capazes de mudar o mundo com ética e compaixão”, argumenta Maria Cristina.
No primeiro ciclo (ou setênio), que vai do nascimento até os sete anos, a pedagogia acredita que a criança está chegando do mundo espiritual e está na fase mais importante do desenvolvimento. “Essa criança está aprendendo as coisas mais difíceis que a acompanharão pelo resto da vida: andar, falar e pensar. O jardim de infância precisa ter o calor, o afeto e o aconchego de uma casa e é fundamental estimular a imaginação”, conta.
Nesse ciclo, não são oferecidos brinquedos industrializados e a fantasia é estimulada: na chamada ‘primeira infância’ as crianças escutam histórias dos clássicos infantis, como os dos Irmãos Grimm, onde sempre há um final feliz.
No segundo ciclo, que vai dos sete aos quatorze anos, o corpo físico já está pronto para o aprendizado formal. “A criança até pode ser alfabetizada antes, mas isso apela para estâncias que ainda não estão prontas. Nesse ciclo, o que está se formando é o sistema cardiorrespiratório, permeado pelas coisas belas do mundo”, conta a psicóloga.
O professor tem um papel central no processo de ensino: o aluno tem um único docente que ministra as matérias básicas durante todo o ciclo. Outros profissionais lecionam disciplinas específicas, tais como inglês, educação física, música e trabalhos manuais. A pedagogia não aplica o conceito de prova para avaliar a capacidade dos alunos. Isso não inviabiliza, de acordo com Maria Cristina, o bom desempenho dos estudantes nas avaliações oficiais.
Já no terceiro ciclo – dos 14 aos 21 anos – a capacidade intelectual do jovem é estimulada. “Nessa fase eles estão desenvolvendo o julgamento para serem seres do mundo. Assim trabalhamos a motricidade no primeiro setênio, a área cardiorrespiratória no segundo e a lógica no terceiro. As aulas precisam contemplar esses três aspectos, em um jeito diferente de pensar a educação”, conta.
Os professores do modelo também fazem uma formação contínua, uma vez que acompanham os alunos por um longo período. A alfabetização também é diferente, em forma de imagens e a escola preza pela participação ativa dos pais. “Eles são figuras essenciais do desenvolvimento e devem estar ao lado dos filhos”, conta Maria Cristina.
Todas as etapas da educação waldorf são permeadas pela religiosidade e pelo respeito a natureza, não sendo, no entanto, uma escola com uma crença específica. “Acreditamos na energia da natureza a tal ponto que não temos quase nada de plástico nas salas. Os alunos têm contato com materiais naturais e a arte é incentivada a todo instante”, finaliza.
Quem inspirou?
A pedagogia Waldorf é a abordagem educativa desenvolvida pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner a partir de 1919. De acordo com Steiner, a educação deve ser totalmente dedicada às necessidades do desenvolvimento da criança, baseado na antropologia evolutiva, que não busca a qualificação profissional ou a produtividade econômica e sim o papel do cidadão no mundo.
