Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro encontraram uma espécie de begônia que não era vista havia mais de um século e era considerada extinta na Ilha de Alcatrazes, localizada no litoral norte de São Paulo.
A Begonia larorum, endêmica da formação insular, não era observada desde sua descrição na década de 1920, a partir de exemplares coletados pelo zoólogo alemão Hermann Luederwaldt (1865-1934).
A redescoberta foi detalhada em um artigo publicado em outubro do ano passado na revista Oryx – The International Journal of Conservation.
No trabalho, os cientistas descrevem a área de ocorrência da planta, suas características morfológicas e alertam para a necessidade de preservação de seu habitat.
Uma busca atenta e um encontro inesperado
Em 2024, um dos cientistas avistou um único indivíduo da planta, fora da fase de reprodução, em uma área de sub-bosque na face sul da ilha.
“Toda vez antes de começar as expedições eu revisitava a espécie descrita na década de 1920 para treinar meu olho e, talvez, encontrá-la. Eu fiquei surpreso. Encontramos um indivíduo só, sem flor, e conseguimos fazer cinco clones a partir de partes da planta e cultivá-los no laboratório na Unicamp”, relata um dos biólogos à Folha de S.Paulo.
Em setembro do mesmo ano, novas expedições revelaram uma população com 19 indivíduos, dos quais 17 estavam em fase reprodutiva.
Características únicas e adaptação insular
A Begonia larorum pertence a um gênero com mais de 2 mil espécies no mundo, sendo cerca de 230 no Brasil, a maioria endêmica da Mata Atlântica.
Até agora, por haver poucos exemplares em coleções botânicas, pouco se sabia sobre a morfologia da planta, coloração das folhas e flores, tipo de solo preferencial e outros aspectos estruturais.
O estudo atual revelou diferenças marcantes em relação a espécies continentais. A B. larorum é mais glabra (sem pelos nas superfícies das folhas), mais adaptada à escassez de água, com raízes mais robustas e de hábitos rupícolas (cresce em solos rochosos ou rente às pedras).
Histórico de degradação e resistência
A Ilha de Alcatrazes, a maior do arquipélago homônimo, está localizada a cerca de 35 quilômetros do continente. Desde 2017, integra a Estação Ecológica Tupinambás e o Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes, unidades de conservação geridas pelo ICMBio.
Por décadas, porém, a ilha sofreu com ocupação desordenada, exploração econômica e introdução de espécies exóticas.
Na década de 1970, a Marinha utilizava parte da área para treinamentos de tiros, o que provocou incêndios e abertura da vegetação, facilitando a proliferação de invasoras como o capim-gordura (Melinis minutiflora).
Esses impactos podem ter levado a microextinções locais de espécies endêmicas.
“A localização da população que encontramos fica na face sul da ilha, em um lugar onde quase ninguém vai, e ela tem uma distribuição restrita. Talvez por isso, por essas características, que ela tenha resistido a esses impactos ambientais”, afirmou um dos responsáveis pelo o estudo.
Próximos passos e conservação
No artigo, os pesquisadores solicitam a inclusão da espécie na Lista Vermelha da IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza) de espécies ameaçadas.
O pesquisador do estudo afirma que pretende realizar análises filogenéticas e biogeográficas para comparar a comunidade da ilha como um todo e entender como ela se diferencia do continente. Além disso, ele pontua que, a partir deste ano, serão iniciados estudos sobre interações bióticas, com foco principal na relação entre a planta e seu polinizador.
O pesquisador também espera elucidar questões ligadas à resistência da espécie frente às mudanças climáticas. Ele conclui explicando que a ilha funciona como um laboratório do que será o planeta no futuro, seguindo as previsões climáticas. Dessa forma, a maneira como essas plantas vivem pode antecipar quais ações de mitigação serão prioritárias nos próximos anos.