Após ser preso, Crivella se diz ‘vítima de perseguição política’

Prefeito do Rio foi denunciado por lavagem de dinheiro, corrupção e participação em organização criminosa, que teria arrecadado R$ 50 milhões em propina

A Polícia Civil do Rio de Janeiro, em parceria com o Ministério Público do Rio, prendeu o prefeito Marcelo Crivella nesta terça-feira (22). Ele foi denunciado por lavagem de dinheiro, corrupção e participação em organização criminosa.

Crivella é acusado de liderar um esquema de corrupção na prefeitura do Rio, conhecido como “QG da Propina”. Segundo o Ministério Público, o valor arrecadado em propina pela organização criminosa chega a R$ 50 milhões. O prefeito nega as acusações e se diz “vítima de uma perseguição política”.

Além dele, foram presos o empresário Rafael Alves, o delegado aposentado Fernando Moraes, ex-vereador e que foi chefe da Divisão Antissequestro e Mauro Macedo, ex-tesoureiro de Crivella. O ex-senador Eduardo Lopes também é alvo da ação, mas não foi encontrado. Por isso, já é considerado foragido.

“Lutei contra o pedágio ilegal, tirei recursos do carnaval, negociei o VLT, fui o governo que mais atuou contra a corrupção no Rio de Janeiro”, disse Crivella ao chegar à Cidade da Polícia.

A desembargadora Rosa Helena Penna Macedo Guita diz, na decisão, que o mandatário não só aceitava com o suposto esquema de propina, como também participava dele. De acordo com o Ministério Público, Crivella é o chefe da organização criminosa instalada no Executivo carioca. “(…) não só anuía com os esquemas criminosos, mas deles também participava, chegando, inclusive, a assinar pessoalmente documentos a fim de viabilizar os negócios do grupo criminoso”, disse a magistrada do Tribunal de Justiça do Rio.

“A necessidade da medida em desfavor do atual Prefeito emerge de toda a narrativa até aqui expendida, pois é cediço que, mesmo no cárcere, poderá o Sr. Prefeito continuar despachando e liberando os últimos pagamentos ilícitos aos seus comparsas, terminando, por assim dizer, de limpar os cofres públicos”, escreveu.

Em setembro, o prefeito já tinha sido alvo de busca e apreensão. Essa operação ajudou a acelerar o processo. Uma das justificativas apresentadas pela desembargadora é que Crivella entregou um celular que não era seu aos agentes que cumpriram mandado na sua casa.

“Esse tipo de conduta, aliás, parece ser uma prática constante entre os membros da organização criminosa”, disse.

Esquema

Depois da operação de setembro, quatro citados na investigação resolveram procurar o MP para colaborar com as apurações. Foram eles: João Alberto Felippo Barreto, Ricardo Siqueira Rodrigues, Carlos Eduardo Rocha Leão e João Carlos Gonçalves Regado. Os depoimentos dos envolvidos são tidos como centrais para embasar as suspeitas iniciais levantadas pelo Grupo de Atribuição Originária Criminal (Gaocrim).

Ricardo Rodrigues chegou a dizer que o famoso empresário Arthur Soares, o “Rei Arthur” – citado em esquemas de corrupção atribuídos ao ex-governador Sérgio Cabral -, foi quem o apresentou a Rafael Alves, apontado como o suposto operador das propinas da prefeitura.

Crivella teria sido requisitado para participar pessoalmente desses encontros. Mas, segundo as investigações, quem o representou foi seu ex-suplente no Senado, Eduardo Lopes (Republicanos), também alvo de pedido de prisão. Rodrigues disse ainda que seu grupo chegou a adiantar R$ 1 milhão em propina antes do então senador assumir o cargo de prefeito, apesar de ter sido pressionado a desembolsar o dobro. Segundo a desembargadora, o depoimento é comprovado por meio de outras provas elencadas pelo MP, como a troca de mensagens entre os investigados.

Em uma das empresas citadas na investigação e beneficiária do esquema, a Mktplus, Crivella teria “abdicado de sua usual cautela” e tratado pessoalmente dos créditos que ela receberia após o pagamento de propina, de acordo com a decisão da Justiça. O prefeito teria pressionado seu então secretário de Casa Civil, Paulo Messina, a efetuá-los.

“Observe-se que, ao longo de sua narrativa, o Ministério Público ilustra todos os fatos criminosos imputados com imagens das provas que os embasam, extraídas de conversas por meio de aplicativos e trocas de e-mails, contratos, editais, planilhas, notas fiscais, comprovantes de depósito, cheques, fotografias, telas de computador, QR Code de vídeos”, escreveu a desembargadora.

“No caso dos autos, conforme bem delineado pelo Ministério Público na peça inicial acusatória, o prefeito não só tinha conhecimento, mas também autorizava a prática de tais crimes e deles se locupletava.” 
Ao todo, 26 investigados foram denunciados. Presos, contudo, apenas nove: Crivella, Rafael Alves, Eduardo Lopes, Mauro Macedo, Licinio Soares Bastos, Christiano Borges Stockler Campos, Madgiel Unglaub, José Fernando Moraes Alves e Adenor Gonçalves. Os presos passarão por audiência de custódia na tarde desta terça com a mesma desembargadora que autorizou as medidas cautelares.

Campanha

Durante a campanha pela reeleição, Crivella se atentou a usar a corrupção como uma de suas principais bandeiras. Ele afirmava que seu adversário, Eduardo Paes (DEM), que o derrotou, iria para a cadeia por corrupção durante seus dois mandatos na prefeitura, de 2009 a 2016.

“Eu já estive aqui em debates como esses, contra pessoas do grupo do Eduardo (Paes), como (os ex-governadores) Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão. A eleição parecia a mesma, com campanha riquíssima, Ibope disparado, e eles ganharam a eleição. Mas, eu pergunto: ganharam mesmo? Não, eles foram presos. A mesma coisa vai acontecer agora. Eduardo Paes vai ser preso e digo isso com coração partido, porque ele cometeu os mesmos erros que Cabral e Pezão”, disse Crivella durante debate realizado pela “TV Globo” em 27 de novembro.

Na manhã desta terça-feira, Eduardo Paes falou sobre a prisão de Crivella. Em uma rede social, o prefeito eleito disse que conversou com o presidente da Câmara de Vereadores, Jorge Felippe (DEM), para que “mobilizasse os dirigentes municipais para continuar conduzindo suas obrigações e atendendo a população”.