Há 27 anos nascia em São Vicente, ali perto do Sá Catarina de Moraes, uma das comunidades mais conhecidas de São Vicente, Rafael França. Um menino que cresceu acostumado com a vida na favela e passou a amá-la, como geralmente acontece com quem consegue aprender os ensinamentos impostos pela rotina humilde, mas não perde a vontade de querer mais.
Assim, ao chegar à juventude, subiu a serra para cursar teologia na Faculdade Batista Teológica do Estado de São Paulo. Lá fez amizade com Emerson Barbosa, outro rapaz de origem humilde, só que da Capital.
Os dois começaram um trabalho de iniciação científica na universidade chamado Teologia de Favela. O estudo venceu uma seletiva e acabou virando livro.
Depois da faculdade, Rafael começou mestrado em grego na Mackenzie, mas o dinheiro para manter o curso acabou e ele precisou trancar. “Quero seguir a carreira acadêmica e isso me frustrou muito. Cheguei a pensar que essa vida não é pra um cara da favela, é pra gente rica. Mas, lançar um livro me mostrou que não. Então assim que puder, eu volto a estudar”, diz Rafael.
Neste Papo de Domingo, uma entrevista sobre o livro que levanta a questão de como Deus age na vida em comunidade e responde a questões como qual a compreensão que os marginalizados podem ter sobre eles mesmos, Deus e a sociedade?
DL – Como surgiu a ideia de escrever o Teologia de Favela?
Rafael França – Em 2016, durante uma aula que eu e o Emerson estávamos tendo na faculdade sobre Teologia Negra. Eu nunca tinha ouvido falar sobre isso. Começamos a estudar o assunto para poder participar da Jornada Científica (evento universitário). Como eu queria seguir a carreira acadêmica, vi uma oportunidade de encorpar o currículo. Diante disso, começamos a estudar e vimos que tinha muitas coisas legais. Toda essa pesquisa acabou se tornando o Teologia de Favela.
DL – Você falou que a realidade de São Paulo abriu sua visão. Acha que falta essa atmosfera na favela para que os jovens lá também possam crescer?
Rafael França – Acho. Essa atmosfera é um dos aspectos que falta pra abrir a mente. Em São Paulo têm grandes empresas, grandes centro acadêmicos, coisas que te fazem querer crescer. Aqui falta isso, mas eu acho que a questão da educação em si é o ponto principal para as pessoas das comunidades da Baixada Santista evoluírem.
DL – Quem adquirir o livro vai encontrar o quê?
Rafael França – Vai encontrar uma ideia. O livro aborda a luta por equilíbrio social por meio da educação, tendo a favela como protagonista. Mas, esse protagonismo não interfere, ou seja, qualquer um que ler vai se sentir parte desse movimento. Como toda ideia ela é feita de embasamento teórico, mas também por experiências para que seja possível colocar essas ideias em prática.
DL – Você poderia destacar um dos pontos do livro para despertar a curiosidade do leitor?
Rafael França – Eu acho que é quando a gente explica o porquê da educação num sentindo mais amplo. Não é essa educação conteudista que nós temos nas escolas onde aprendemos só equações e datas históricas. Também não é apenas um título, uma graduação ou bom comportamento – embora tudo isso faça parte da educação, a educação não é só isso. Ela ensina o indivíduo a ser integralmente um ser, isso é um grande poder.
Quando comecei a me aprofundar no tema passei a usar esses ensinamentos pra mim mesmo, então acredito que da mesma forma que este livro me ajudou pode impactar também outras pessoas. Ele é uma proposta para àqueles que querem participar de alguma forma da transformação que o Brasil precisa, que é a busca por um equilíbrio social. O protagonismo encontrado no livro pode ser da favela, mas todos têm parte disso.
DL – No prefácio do livro você pergunta qual a ligação entre Deus e a favela. Conseguiu a achar uma resposta?
Rafael França – Sim! Algumas teologias sociais colocam que Deus prefere os pobres. Eu não acho dessa forma. Acho que Deus mantém todos os seres humanos em um mesmo patamar, seja com dinheiro ou não, seja morando na favela ou não.
Deus é um ser que preza pela igualdade. Mas, onde existe um desequilíbrio social a Bíblia mostrou que existia uma intervenção de Deus e quando Ele intervia usava os menos favorecidos para essa luta. Então, Deus encontra na favela o povo que ele quer usar na busca pelo equilíbrio que o Brasil precisa. E eu como parte da favela me sinto também parte desse protagonismo.
DL – Outra questão que o livro levanta é: o ser divino atua no ambiente periférico?
Rafael França – Atua, atua por ela e através dela. Nós precisamos explorar isso. Interessante que nós usamos um dado do livro do Celso Athayde, “Um país chamado Favela”, que mostra que 74% dos moradores de comunidade acreditam que a favela melhorou nos últimos dez anos e 40% acreditam que o motivo dessa melhora é Deus. Então a própria favela reconhece que Deus atua ali.
DL – De que forma Deus age na favela?
Rafael França – Deus atua com essa intenção de crescimento integral do ser, assim como a educação. Por isso que fazendo essa reflexão sobre Deus e sobre Fé, utilizei a educação como arma, porque a linha que a educação carrega Deus também carrega. O próprio exemplo disso é Jesus. Um trecho da bíblia diz que Jesus cresceu em estatura, sabedoria e graça diante de Deus e diante dos homens, ou seja, era o físico, o intelectual, o social e o espiritual. Então, a educação tem a mesma intenção, não apenas conteúdo, mas que isso possa virar prática e sentimento.
DL – Você realiza trabalhos junto aos meninos da Fundação Casa. Eles se sentem culpados perante Deus?
Rafael França – É complicado. Essa pesquisa do Celso mostrou também que 1% da favela acredita que a melhoria dela se daria por políticas públicas, ou seja, a maior responsabilidade ainda é colocada em Deus. Saiu uma reportagem do Observatório de Favelas sobre o Complexo da Maré que fala sobre essa questão: mais de 57% dos meninos que estão no tráfico professam a fé cristã. Então, como trabalhar essas coisas? Trazendo esse dado para o nicho evangélico, eu posso pontuar algumas coisas que explicam isso.
DL – Como assim?
Rafael França – Existem vários tipos de teologia e infelizmente algumas delas são prejudiciais porque elas não estão de acordo com aquilo que a Bíblia aponta. Tem um livro chamado “Protestantismo Tupiniquim”, do Gedeon Alencar, onde ele coloca que a maior teologia que vigora dentro das comunidades é muito distorcida porque é dito que é possível barganhar com Deus, por exemplo: você entrega pra “Deus” – entre aspas porque na verdade você entrega para o pastor – e aí você terá uma recompensa.
O dinheiro, a conquista e o poder como únicos meios de prosperidade, sendo que essas coisas não estão na Bíblia e não é o que Deus ensina. O adolescente ou qualquer morador da favela que pega essas verdades pensa: “Deus fala que para eu ser próspero tenho que ter dinheiro e poder, então vou correr atrás disso”. Só que na favela qual é o meio que ele tem para conseguir isso? É o crime. Então ele junta aquela teologia com a realidade que ele tem e pensa: agora estou dentro daquilo que Deus queria pra mim.
Só que ele não consegue enxergar que o meio para ser próspero é ilícito. Mas ele ve ali uma forma de ser abençoado por Deus. Infelizmente, há essa característica da favela que junta a teologia distorcida com a realidade que eles têm e é prejudicial. Isso é um dado do Rio de Janeiro, mas nós podemos ver essa realidade aqui, por exemplo, em uma das Fundação Casa que trabalho, de acordo com a coordenadora, dos 127 internos, apenas 27 não professam a fé cristã.
É um mix de fé e ilicitude. Claro que tem outras causas, mas eu tento trabalhar em cima dessa e ensinar uma teologia coerente com a bíblia. O que Deus ensina precisa ser coerente socialmente falando.
