Primeiro foi nas ruas de entorno da comunidade que fica na Zona Noroeste de Santos. Depois, em frente ao Fórum no Centro da cidade. Na última terça-feira (24), os (as) moradores (as) de Casinhas, da região do Caminho São Manoel, resolveram usar a Tribuna Cidadã, da Câmara de Vereadores, para denunciar a violência policial contra Matheus Lopes Silva Santos, de 21 anos, baleado por policiais do Batalhão de Operações Especial de Polícia (Baep), no último dia 8.
Como nas manifestações públicas anteriores, a família de Matheus e os vizinhos garantem que o rapaz é inocente. Matheus é ajudante de pedreiro e também atua como funcionário em um ferro-velho, sendo reconhecido como um jovem trabalhador e comprometido com suas responsabilidades.
Matheus foi baleado e levado para o Hospital Vicentino, em São Vicente, onde ficou internado sob vigilância policial. O tiro quase resultou em sua morte.
A família revela que apesar da gravidade do ferimento, no dia 18 último, ele recebeu alta médica e imediatamente após a liberação hospitalar, foi encaminhado diretamente ao 5º Distrito Policial de Santos sem o devido acompanhamento médico e sem acesso ao tratamento adequado. O rapaz se encontra no Centro de Detenção Provisória (CDP) de São Vicente.
Emocionada, a mãe de Matheus, Ana Paula Balbina Lopes da Silva, preferiu que a prima do rapaz falasse na Tribuna Cidadã. Ao Diário, disse que “É uma injustiça que estão fazendo com o meu filho. Temos todas as provas. Ele é trabalhador, ele não é bandido, como estão falando. Ele foi conduzido para o CDP. Queremos a libertação dele. Vamos de novo para a frente do Fórum pedir isso”.
Investida
Durante a investida, os policiais apreenderam armas e drogas e também três homens – incluindo Matheus – e um adolescente de 17 anos. Segundo a versão policial, Matheus foi o único baleado por estar armado e atentar contra a vida dos policiais. O tiro entrou pelo abdômen, saiu pela perna e perfurou a artéria femoral. Matheus foi encaminhado ao hospital pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).
Pessoas presentes informam que a polícia entrou na comunidade atirando, o que gerou pânico, pois as ruas e vielas estavam cheias de crianças brincando e adolescentes empinando pipa como é natural num dia de domingo.
No tumulto e correria, a avó de Matheus ouviu os gritos do neto que havia sido baleado pelos policiais, conforme vídeo postado nas redes sociais, em que ela começa a gritar e pedir por ajuda, alegando que Matheus nada tinha a ver com a situação revelada pela polícia.
A vereadora Débora Camilo (Psol) se manifestou na Câmara. “A família está usando a Tribuna Cidadã justamente para levar informação para todos os vereadores e para a sociedade. Não é a primeira e não será a última vez. A gente está falando de um jovem trabalhador que quase perdeu a vida. É preciso mobilização da sociedade para que ele seja solto, porque ele não é bandido e precisa estar com a família”.
Secretaria
Procurada, a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) já havia se manifestado informando que os autores, três homens, de 21, 38 e 41 anos, foram presos em flagrante, e um adolescente, de 17, apreendido. O inquérito policial foi relatado para apreciação da Justiça dia 10.
A Polícia Civil esclarece que todos os procedimentos adotados seguiram estritamente o disposto no Código de Processo Penal. Demais questionamentos devem ser encaminhados ao Poder Judiciário.
FGV
O caso de Matheus Santos ocorreu no período em que o Centro de Pesquisa Aplicada em Direito e Justiça Racial da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Direito SP lança o estudo Mapas da (In)Justiça, que investiga a responsabilização de policiais em abordagens letais no Estado de São Paulo.
A análise realizada pela FGV abrange 859 procedimentos criminais entre 2018 e 2024 e revela que, nesse período, nenhum agente de segurança pública foi responsabilizado. Em 62% dos casos, as vítimas eram negras.
O levantamento destaca a recorrência de justificativas genéricas, como “prática de crime” ou “atitude suspeita”, para legitimar a letalidade policial. Além disso, aponta omissões investigativas, como a ausência de exames básicos e demora na emissão de laudos, especialmente em casos com vítimas negras.
