Pouco mais de dois anos de implantação da Lei Recicla Santos, a Usina de Triagem de Lixo Reciclável, administrada pela Cooperativa de Materiais Recicláveis Santista (Comares), na Alemoa, tem registrado aumentos consecutivos no índice de rejeitos, ou seja, o que não pode ser reciclado.
Só em junho deste ano, 63% de tudo que foi recolhido pela coleta seletiva, depois de triado, eram, na verdade, não recicláveis – sendo destinado ao aterro Sítio das Neves.
A situação tem sido acompanhada pelo vereador Sadao Nakai (PSDB), que no início deste mês protocolou um requerimento na Câmara questionando a explosão no índice de rejeitos do que é enviado à Comares.
Em outro questionamento, feito no semestre passado, o vereador quis saber os volumes recolhidos de recicláveis e de rejeitos em 2016, 2017 e 2018. Em resposta, obteve um relatório da secretaria de Meio Ambiente confirmando que, desde 2016, o rejeito vem aumentando ano após ano.
Antes da lei, em 2016, das mais de 3 mil toneladas coletadas no ano pela coleta seletiva, quase duas (1.940,62 toneladas) eram rejeito.
Com a sanção, em 2017, as toneladas coletadas pelo serviço chegaram a 4.562,58 T, mas junto com elas aumentaram os rejeitos, que contabilizaram mais de 2 mil toneladas.
No ano passado, a montanha de rejeito chegou a 2,8 toneladas até novembro, antes da temporada, época que a cidade aumenta a produção de lixo.
“Ano após ano, praticamente metade do que se coleta no programa municipal acaba sendo destinado ao aterro sanitário”, alertou o vereador, que se diz preocupado também com a situação do Sítio das Neves.
O aterro está próximo do fim de sua vida útil, que chegou a ser cogitada para este ano. Mas, após a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) consentir uma área a mais de 40 mil metros quadrados, a capacidade de receber resíduos foi estendida até 2021.
“Fui visitar a cooperativa e percebi que os rejeitos aumentaram porque tem muita coisa que as pessoas acham que é reciclável, mas não é. Essa confusão acontece também porque as empresas responsáveis pela produção dessas embalagens ainda não se adequaram à logística reversa”, diz Sadao.
Desde que a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS)- Lei 12.305/10 – foi sancionada, passou a ser obrigação da indústria recolher o que coloca no mercado. É a chamada logística reversa.
Neste processo, os produtores de embalagens e produtos que não encontram compradores no mercado da reciclagem ou não podem ser reciclados, são obrigados a oferecer postos de devolução para destinação correta, mas até o momento grande parte da indústria ainda não se adequou.
Segundo o vereador, o poder público tem feito a sua parte pressionando as empresas através de acordos setoriais – contrato firmado entre as partes com objetivo de implantar a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida do produto.
POPULAÇÃO X INDÚSTRIA.
Sérgio Gomes, diretor administrativo da Comares, explicou que a parcela de culpa da população vem do descarte irregular de produtos não recicláveis, como roupas e colchões.
Já a indústria continua colocando no mercado embalagens descritas como recicláveis no rótulo, mas que na prática não têm destinação por meio da reciclagem.
“Por exemplo, garrafas de leite com a parte interna escura não têm mercado, mas a empresa fabricante informa no rótulo que elas são recicláveis, isso confunde as pessoas”, diz.
Em uma reportagem do Diário, em 2017, o problema já tinha sido denunciado por cooperados da região.
Na época, fardos de embalagens de salgadinhos, café e garrafas plásticas de leite estavam paradas nas cooperativas porque não havia compradores devido ao tipo de plástico que as compõe.
No caso dos pacotes, separar a parte metalizada interna do plástico externo encarece o processo de limpeza pós descarte e afasta os compradores.
Quanto às garrafas de leite, a película escura interna ajuda a conservar o leite, mas prejudica o processo de reciclagem.
“Enquanto as empresas não se responsabilizarem por um processo cíclico para o que produzem, os aterros vão continuar sobrecarregados, e a população pagando imposto por um serviço de coleta que, na verdade, quem deveria arcar é a indústria”, diz Sérgio.
VETO.
Há cerca de quatro meses, a Comares não tem mais acesso ao ticket de pesagem dos caminhões da Terracom que levam para o aterro os rejeitos da coleta seletiva.
Questionado sobre o veto, o secretário de Meio Ambiente de Santos Marcos Libório, informou que não há, por contrato, obrigação de passar esses dados para a cooperativa e que a mudança foi uma medida de gestão. Ressaltou, porém, que essas informações são públicas e podem ser consultadas com a Terracom e com a própria prefeitura.
Quanto aos altos índices de rejeitos registrados na cidade, e que até então eram divulgados pela cooperativa, Libório explicou que a Lei Recicla Santos ainda é nova e a população está se adaptando.
