“Na entrevista do CAMPS, o meu filho disse que não tem sonho. A psicóloga insistiu e perguntou o que ele mais gostaria de fazer com o primeiro salário e ele disse que iria ajudar a mãe dele que vivia em uma situação difícil. Eu queria que ele pensasse nele, mas ele pensa em nós. A vida é dura, minha filha. A vida é”.
35 anos, quatro filhos e R$340 para sustentar uma casa: Patrícia Santos, moradora de um dos cortiços da Região Central de Santos, é uma das pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza – com a renda familiar inferior a R$ 387,07 ou US$ 5,5 por dia, valor adotado pelo Banco Mundial para definir se uma pessoa é pobre.
Os dados foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e fazem parte da pesquisa Síntese de Indicadores Sociais 2017 – SIS 2017.
Apesar de apontar que o maior índice de pobreza se dá na Região Nordeste do país (43,5%) a realidade é a mesma de diversas famílias da Baixada Santista, no Estado mais rico do Brasil.
A situação é ainda mais grave se levadas em conta as estatísticas envolvendo crianças de 0 a 14 anos de idade. No país, 42% das crianças nesta faixa etária se enquadram nestas condições e sobrevivem com apenas US$ 5,5 por dia. Essa é a situação dos filhos de Patrícia.
Na área externa de um dos muitos casarões históricos que hoje abrigam dezenas de cortiços, Patrícia recebeu a nossa equipe para falar do que já é rotina em sua vida: a forma de equilibrar as contas que se recusam a fechar e garantir teto e comida para os quatro filhos – de 15, 13, 10 e 7 anos respectivamente.
A tarefa que já era complicada – visto os R$800 que paga de aluguel – se tornou insustentável há dois meses, quando os pais das crianças perderam o emprego e deixaram de pagar a pensão. Hoje a única renda da família é composta por R$ 269,00 do Bolsa Família e R$80 de auxílio aluguel, ambos programas assistenciais do Governo Federal.
“Sempre foi uma corda bamba, que agora se rompeu. Tenho quatro filhos, um deles com necessidades especiais que contribuiu para que eu não parasse nos empregos, uma vez que não tenho família para me ajudar. Sempre me ligavam falando que meu filho estava em crises e eu corria para socorrer.
Ele já sofreu quatro paradas cardíacas e tem crises muito violentas: que mãe não largaria tudo para socorrer o filho? Por conta disso, fui mandada embora antes de acabar o período de experiência, mas sempre fiz cursos e aceitei qualquer tipo de serviço, mas mesmo trabalho de faxina está difícil conseguir”, conta.
Após ser despejada três vezes, ela afirma que hoje a prioridade é garantir um teto para as crianças. “Não posso correr o risco de perder a guarda deles. E sempre que eu era despejada as crises do meu filho se intensificavam e acabava por perder todo progresso que ele tinha feito no tratamento. Eu sei o que é morar na rua e não quero isso para eles. Comida a gente consegue doação, graças a Deus, mas sem teto a gente não pode ficar”, conta emocionada.
Ela lembra que em um dos despejos – de um cortiço no Mercado Municipal de Santos – dois alugueis estavam atrasados e quando ela chegou do trabalho encontrou os móveis da casa na rua, sendo saqueados. “Os vizinhos mais próximos chegaram a guardar algumas coisas, mas não tinha jeito. De lá fui para um barraco na favela, mas como não fiz manutenção ele cedeu no mangue. Depois disso precisei vir para cá e tento arcar com esse aluguel mais caro, que ao menos garante um banheiro individual, mas não estou mais conseguindo pagar. Meu namorado me ajuda, mas já está insustentável essa situação”, diz.
Com infiltrações e pequenos insetos na cozinha, a casa de Patrícia é o último cômodo de um dos cortiços do Rua Amador Bueno. A reportagem já havia entrado no local no ano passado, durante o processo de entrevistas para uma reportagem sobre os cortiços do Centro Histórico. Na ocasião, ela já havia contado um pouco de sua historia: abusada pelo padrasto aos 11 anos de idade, foi expulsa de casa pela mãe, que acreditou que a menina se insinuava para o cônjuge. Na rua conheceu o crack e a cocaína. Aos 16 anos, quando engravidou do primeiro filho, percebeu que era hora de repensar a vida e conseguiu se livrar das drogas.
A esperança da família hoje é o ingresso do filho mais velho no Centro de Aprendizagem e Mobilização Profissional e Social (CAMPS). O menino deverá seguir o mesmo caminho de 65% dos jovens da entidade: serem os responsáveis ou corresponsáveis pelo sustento das famílias mesmo antes de completar a maioridade.
A pesquisa de indicadores sociais revela uma realidade desoladora: o Brasil é um país profundamente desigual em todos os níveis.
Seja por gênero – as mulheres ganham, em geral, bem menos que os homens, mesmo exercendo as mesmas funções; seja por raça e cor: os trabalhadores pretos ou pardos respondem pelo maior número de desempregados, têm menor escolaridade, ganham menos, moram mal e começam a trabalhar bem mais cedo exatamente por ter menor nível de escolaridade.
Essa é a situação de José*, que dorme nas ruas há mais de dez anos. Natural de Santos, ele conta que o desemprego atrelado com o uso excessivo de bebidas alcoólicas o levaram para as ruas. “Trabalhava como pintor, mas foi ficando cada vez mais difícil conseguir uma colocação e para aguentar os trancos da vida comecei a beber. A partir disso tudo o que conseguia nos bicos eu gastava em bebida e hoje estou nessa situação”, conta.
Desde dezembro, José também recebe R$80 do Bolsa Família, após a inscrição de seu nome no programa por assistentes sociais da Prefeitura de Santos. Para não correr o risco de perder o dinheiro, ele guarda os documentos com um comerciante da praça. “Junto esses R$80 com o dinheiro de alguns bicos e compro comida. Um dia ajudei em um serviço de desentupimento, no outro pintei uma banca de jornal e no outro carreguei entulho. A gente se vira como pode”, afirma.
O Brasil é um país onde a renda per capita dos 20% que ganham mais – cerca de R$ 4,5 mil – chega a ser mais de 18 vezes que o rendimento médio dos que ganham menos e com menores rendimentos por pessoa – cerca de R$ 243.
“É difícil né, entender essa situação? A gente luta tanto, se esforça tanto e não consegue garantir nem a comida, o que dirá um mimo a mais para os filhos. Eles estão crescendo, as vezes me pedem algo e parte meu coração não conseguir dar. É tanta notícia de roubo, de desvio de dinheiro no governo e a população abandonada. Não sei se tenho esperança de que algo vai mudar”, finaliza Patrícia, acrescentando que no final do mês mudará com a família para alguma outra região, uma vez que não tem como pagar o próximo aluguel. (Com informações da Agência Brasil).
