Arlete Caramês morre aos 82 sem encontrar o filho desaparecido há 34 anos

Arlete Caramês passou a vida se dedicando à busca por Guilherme, desaparecido aos 8 anos em Curitiba

Arlete partiu sem descobrir o paradeiro do menino

Arlete partiu sem descobrir o paradeiro do menino | Reprodução/Youtube

O silêncio de três décadas e meia nunca foi preenchido por uma resposta. Morreu nesta terça-feira (24), em Curitiba, Arlete Caramês Tiburtius, aos 82 anos. A trajetória de Arlete é marcada pelo dia 17 de junho de 1991, data em que seu filho, Guilherme Caramês Tiburtius, então com 8 anos, saiu para dar uma volta de bicicleta no bairro Jardim Social e nunca mais foi visto. 

Arlete partiu sem descobrir o paradeiro do menino, mas deixando uma estrutura de segurança pública que hoje salva milhares de outras crianças.

Naquela manhã de 1991, Arlete se despediu do filho enquanto ele ainda dormia e foi trabalhar. 

Guilherme passou o período com a avó, chegou a ligar para a mãe pedindo para usar um dinheiro guardado para comprar um coelho e, pouco antes do almoço, pediu para dar uma última volta de bicicleta. 

Bastaram trinta minutos para que o mistério se instalasse: apesar das buscas imediatas com cães farejadores e varreduras em rios próximos, nem o menino, nem sua bicicleta, jamais foram localizados.

Do luto à luta: a criação do Sicride

Inconformada com a falta de suporte especializado na época, Arlete transformou o próprio sofrimento em ativismo político e social. Em 1992, fundou o Movimento Nacional da Criança Desaparecida do Paraná (CriDesPar). 

Sua persistência foi o pilar para a criação do Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas (Sicride), em 1995 – até hoje a primeira e única estrutura policial do Brasil dedicada exclusivamente a casos de desaparecimento de menores.

A influência de Arlete também mudou a legislação federal. Por meio de seu esforço, uma lei de 2005 alterou o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para garantir que as buscas comecem imediatamente após a notificação, derrubando o mito de que era necessário aguardar 24 horas. 

Graças a ela, órgãos como polícias rodoviárias, portos e aeroportos passaram a ser comunicados instantaneamente sobre qualquer sumiço de criança no país.

A esperança que não morreu

Arlete ingressou na vida pública como vereadora de Curitiba e deputada estadual, sempre com pautas voltadas à proteção infantil. Dentro de casa, porém, o tempo parecia ter congelado em 1991. 

Ela mantinha as roupas, objetos e fotos de Guilherme intactos, preservando a memória do filho com a mesma intensidade do primeiro dia. Recentemente, em um documentário, ela reafirmou que sua sobrevivência dependia da esperança de ter, um dia, uma resposta. Assista abaixo:

Apesar de Arlete ter morrido sem o reencontro físico com Guilherme, seu nome tornou-se sinônimo de esperança para centenas de famílias que conseguiram localizar seus filhos através das instituições que ela ajudou a fundar. 

A Câmara Municipal de Curitiba e autoridades estaduais lamentaram a perda daquela que é considerada a “mãe símbolo” da causa, destacando que o legado de Arlete Caramês continuará vivo em cada busca realizada pelo Sicride.