Na última semana, a novela envolvendo a Cadeia Velha de Santos ganhou mais um capítulo. Faltando poucas semanas para o prazo final de conclusão das obras estipulado pelo Governo do Estado de São Paulo, o destino do imóvel continua sendo alvo de polêmica.
Após o anúncio de que o espaço abrigaria o Centro Cultural Nova Cadeia Velha, reforçado no final do ano passado pela Secretaria do Estado da Cultura em matéria do Diário do Litoral, um grupo de empresários santistas decidiu buscar apoio da população para que o equipamento abrigue o Museu Histórico de Santos.
A iniciativa prevê a ocupação de todas as áreas da antiga Casa de Câmara e Cadeia, transformando o espaço em um museu de caráter pedagógico e turístico. As primeiras reuniões do projeto tiveram início em outubro de 2015 e vários locais do Centro Histórico foram levados em consideração para abrigar o equipamento, sendo a Cadeia Velha o que mais se adequava à proposta.
Porta-voz da ideia, o presidente da Associação Museu Histórico de Santos (órgão criado especificamente para a difusão do projeto), Ricardo Mota afirmou, por meio de material divulgado à imprensa, que “tonar o espaço para oficinas culturais é enfraquecer seu potencial de uso, uma vez que a oferta de oficinas e cursos precisa ser descentralizada”.
Foi criado um site para difundir a iniciativa, além de dois espaços físicos de Santos estarem recolhendo assinaturas para uma petição a favor da instalação do museu. O grupo afirma também que enviou um pedido formal à Secretaria de Estado da Cultura para apresentar a proposta, além de conversar com o secretário Municipal de Cultura, Fábio Nunes. O Diário do Litoral procurou por representantes da Associação Museu Histórico de Santos, mas nenhum respondeu os questionamentos da Reportagem até o fechamento desta matéria.
Artistas defendem espaço multicultural
Representantes do segmento cultural usaram as redes sociais para manifestar o repúdio ao projeto. Eles criaram uma página onde estão alimentando conteúdo a favor da ideia inicial, resultado de duas audiências públicas realizadas no primeiro semestre do ano passado em Santos. O grupo destaca que não é contra a existência de um espaço museológico na Cadeia Velha, mas que ele seja parte de um Centro Cultural mesclado com outras atividades.
“Houve um processo transparente para definição do destino do imóvel no ano passado, processo esse que contou com duas audiências públicas e a presença do ministro da Cultura. Olho com desconfiança a índole de um projeto que nasce de forma nebulosa no meio de uma decisão democrática”, afirmou o dramaturgo Bruno Fracchia.
Para ele, resumir o espaço a apenas um museu é ir na contramão do que acontece em outros espaços museológicos da Baixada Santista. “Temos a Pinacoteca, que funciona em uma área privilegiada e mesmo assim mescla em suas atividades oficinas e apresentações teatrais pois já entendeu que apenas como espaço de exposição não atrai público”.
De acordo com o mestre de capoeira Kaled Barros, a decisão tomada em audiência pública precisa ser respeitada e o espaço deve ser plural para todas as vertentes artísticas. “Precisamos de equilíbrio e levar em consideração que a Cultura é diversa e um Centro Cultural instalado na Cadeia Velha certamente também seria. No passado, o espaço já foi palco para exames de graduação e workshops, além de apresentações tanto na área interna e externa. O legal é que o esporte interagia perfeitamente com todas as outras modalidades artísticas que aconteciam ali e é importante que, com a reabertura, continue sendo assim”.
O jornalista cultural Lincoln Spada afirmou que apoia a proposta do Museu Histórico de Santos, desde que ele não ocupe um espaço democrático que será gerido pela população. “Um museu na Cadeia Velha iria cobrar ingresso e nós defendemos a entrada livre; no lugar de uma loja de souvenires nós queremos uma biblioteca; no pavimento que na proposta do museu seria estático, nós prevemos salas multiculturais. Isso tudo sem contar que, no caso do museu, uma instituição precisaria gerir o espaço e como Centro Cultural a gestão seria compartilhada entre Governo, Município e Sociedade Civil”.
Spada destacou que em audiência pública realizada no ano passado, mais de 50 entidades assinaram uma carta pedindo o uso do espaço como centro plural de artes. Dentre elas, representantes da classe museológica, literária, audiovisual e teatral.
‘Proposta será anunciada na sexta’, afirma secretário
Durante visita à Santos na manhã de ontem, o secretário de Cultura do Estado de São Paulo, o museólogo Marcelo Araújo, foi evasivo quando questionado sobre a finalidade do imóvel após o término da restauração.
De acordo com Araújo, até o final desta semana a Secretaria de Cultura divulgará uma proposta sintetizando o futuro da Cadeia Velha. “Nesta proposta todas as questões serão esclarecidas.
Acompanhamos as discussões e até sexta-feira vamos divulgar as sugestões de atividades de funcionamento do espaço, projeto que já estamos trabalhando há tempos, a partir da interlocução com todos os setores”.
Políticos divergem
Embora seja um imóvel do Estado, políticos santistas com interesses específicos no equipamento, em virtude de suas possibilidades culturais e turísticas, possuem opiniões divergentes sobre a Cadeia Velha.
Questionado, o secretário de Cultura de Santos, Fábio Nunes, afirmou que independente de qual for a destinação do imóvel, ele continuará sendo um equipamento cultural. “O que precisamos é vivacidade. Um espaço nobre como a Cadeia merece um projeto com ativação cultural. Se esse museu idealizado por esse grupo for um tecnológico e de qualidade, o Governo do Estado e a Prefeitura vão poder considerar como uma das possibilidades de uso”. Fabião ressaltou que nada foi definido nas audiências públicas realizadas em 2015. “A tomada de decisão depende de variáveis.
A mais importante é ouvir a demanda das múltiplas linguagens culturais. Esse jogo de braço é salutar”, afirmou.
Para o secretário de Turismo, Luiz Dias Guimarães, museus são importantes para uma cidade turística, mas há dúvidas se a Cadeia Velha seria o espaço ideal. “Há uma tradição de uso do equipamento com oficinas e pelo movimento cultural. Mas a ideia do museu deve ser respeitada e é importante. Devemos buscar uma solução e encontrar um prédio, um local ideal para isso”.
Paulo Alexandre Barbosa, prefeito de Santos, afirmou que o diálogo deve permear qualquer decisão do Poder Público, principalmente na questão da cultura, que é um ambiente democrático. “Com certeza, a Cadeia é muito ampla e vai abrigar todas as iniciativas, devendo ser um espaço de fomento à cultura. Vi as propostas e acredito que elas possam conviver harmonicamente, pois não são propostas excludentes e sim complementares. A Cadeia Velha não contempla nenhuma atividade exclusiva e nem totalitária. É um ambiente de convivência de várias vertentes”, finalizou.
A novela da Cadeia Velha
A proposta de restauração da Cadeia Velha teve início após vistoria realizada pela Secretaria de Estado da Cultura, em abril de 2012, onde foi constatado sérios danos estruturais no equipamento.
Em meados de 2013, a Prefeitura apresentou a ideia de uso compartilhado ou de municipalização do imóvel. A proposta, porém, não seguiu adiante após reinvindicação da classe artística, que temia que o processo colocasse fim às atividades das oficinas culturais que eram realizadas no espaço.
Em dezembro de 2014 começam os rumores de que após o término das obras a Cadeia Velha se transformaria em um Museu. Uma audiência pública foi realizada em maio de 2015 com o objetivo de ouvir a proposta de artistas e população para definir o futuro do imóvel.
Em julho de 2015 uma decisão conjunta da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo e Secretaria de Cultura de Santos (Secult) determinou que, após o término das obras, a Cadeia funcionaria como espaço de apoio à produção artística local e se chamaria Centro Cultural Nova Cadeia Velha.