Há exatos 122 anos o Rio de Janeiro sediava a primeira exibição cinematográfica pública do País. Em homenagem ao feito, hoje é celebrado o Dia do Cinema Nacional. Apesar da data ser controversa (muitos utilizam o dia 19 de junho, data que tem como referência as primeiras gravações cinematográficas brasileiras), a comemoração é válida em todo território nacional, visto os últimos índices divulgados pela Agência Nacional de Cinema e as conquistas do audiovisual caiçara.
De acordo com o anuário da Ancine, em 2017 foi lançado um número recorde de títulos brasileiros (160) dentro da série histórica (2009-2017). Esses títulos venderam mais de 17 milhões de ingressos, o que representou uma participação de público de 9,6%. Até o dia 31 de agosto deste ano, o Brasil já lançou115 títulos e acumulou uma bilheteria correspondente a 13,26% da participação de público.
Em Santos, considerada uma das oito cidades criativas no mundo do cinema pela Unesco, o setor segue ativo e ofertando ao público variados produtos.
Na visão da professora do curso de Cinema e Audiovisual e atual secretária adjunta de Cultura, Raquel Pellegrini, a produção cinematográfica brasileira se manteve ativa mesmo em períodos de crise, evidenciando justamente as inquietações em relação ao país.
Diretora técnica do Curta Santos, um dos mais aclamados festivais de cinema do Brasil, Raquel afirma que a qualidade das produções é um fator que se destaca ano a ano no festival. “É uma prova de que o cinema brasileiro, no segmento de curta-metragem, nunca parou de produzir e ser uma janela para as inquietações individuais e coletivas. Recebemos filmes do Brasil todo e notamos o diálogo com o momento atual. Teve um momento onde a depressão e a morte eram figuras muito presentes nas produções. Atualmente as produções buscam o lugar de fala em relação às criticas sociais, o papel da mulher, a afirmação do universo trans, dos movimentos sociais e as criticas a falta de aceitação de algumas coisas”, pondera.
A importância da memória
Ganhador da Mostra Olhar Caiçara da 16ª edição do Curta Santos, o jornalista Leandro Olímpio levou para a tela do cinema as memórias de sua avó Elza, no filme homônimo.
“Sempre tive interesse em documentários classificados naquilo que é intransferível, como a minha relação pessoal e as memórias da minha avó. Sempre tive admiração pela história de vida dela e aproveitei uma viagem para filmar nossas conversas e depois, na hora de editar, decidir se iria publicar ou apenas transformar em um documento privado familiar”, destaca.
Na visão do jornalista, os documentários, até os anos 2000, tinham caráter impessoal, com filmes sobre eventos, causas ou fatos. “A vida privada acabava ficando em segundo plano. Isso muda um pouco quando o subjetivo e o privado ganha um espaço público. Eu entendi que o curta expressaria o diálogo entre duas gerações: a geração da minha avó narrando a história e a minha geração que é muito das redes sociais e mais impaciente com a conversa mais prolongada”, conta.
Sobre o cenário brasileiro, Leandro ressalta a importância da presença feminina nas produções. “Isso ajuda a quebrar um estereótipo, um preconceito que vem de um tradição patriarcal de que a mulher é o sexo frágil e dependente. A história da Elza, por exemplo, é a história de uma mulher que teve força para superar as dificuldades”, finaliza.
