Papo de Domingo: “O teatro é o contraponto”

Representantes do segmento teatral falam sobre o papel simbólico da arte e as dificuldades de produção na região

No último dia 21 de março foi comemorado o Dia Universal do Teatro. A arte da interpretação é uma das mais antigas formas do homem expressar o mundo que o cerca e expor, por meio de críticas, as contradições do seu tempo.

Apesar do advento da televisão e da internet e dos constantes cortes nos orçamentos destinados para a cultura, as manifestações teatrais resistem em um cenário cada vez mais desafiador.

Nesse papo de domingo, o Diário do Litoral conversou com Alessandro Cruz, idealizador do Festival de Artes Cênicas de São Vicente; Caio Pacheco, fundador da Trupe Olho da Rua de Santos e Vinícius Camargo, ator da Cia Animalenda de Itanhaém. Eles falaram sobre o papel da arte e as dificuldades de implantação de políticas públicas voltadas para o segmento.

Diário do Litoral – Como é pensar teatro hoje na Baixada Santista?

Vinícius Camargo – Estar na Baixada não teve impacto na nossa maneira de pensar teatro. Fazer arte na Baixada, para nós, quase sempre significa apenas ter um próprio ateliê onde produzimos nossos bonecos, algo que não tínhamos em São Paulo. Porém, continuamos nos apresentamos quase que exclusivamente fora daqui. As exceções são apresentações pontuais no Sesc e nos festivais. Isso acontece em virtude da quase absoluta falta de política pública e espaço em uma mercado muito parco para área teatral. 

Caio Pacheco – No plano estético, pensar teatro na Baixada Santista é bastante produtivo, pois, como estamos bastante afastados da ideia de mercado, os grupos com um trabalho de pesquisa continuada têm uma certa liberdade de criação.

Alessandro Cruz – Está cada vez mais difícil. Falta recurso para muita coisa, quando ao mesmo tempo há convênios firmados para produções que não refletem a arte produzida na região. Se tais recursos fossem de fato direcionados para cultura, teríamos ações muito mais eficazes.

DL – Dentro dos seus municípios, como o teatro é tratado? Há investimentos e políticas públicas voltadas para o segmento?

Vinícius – Em Itanhaém, realizamos uma única apresentação contratada, dentro de um projeto que tem como base a renúncia fiscal. Ou seja: não houve investimento da Cidade. O nosso fazer teatro é simplesmente produzir e se relacionar com artistas. Trabalho mesmo, não existe. Muitas vezes o que o Prefeitura fornece é o ponto de energia elétrica. Falando em política pública voltada para cultura, Itanhaém é terra arrasada.

Caio – Em Santos, não temos muitas políticas públicas voltadas para o teatro e também não temos a perspectiva de construção de tais políticas públicas. Isso acontece não pela falta de iniciativa da classe teatral e sim pela insensibilidade da classe política de debater a questão. E não está dentro da perspectiva de governo atual fazer uma discussão mais aprofundada sobre isso.

Alessandro – Em São Vicente há um boicote grande por parte do poder público de não reconhecer o movimento teatral da Cidade. Mesmo provando a participação efetiva das pessoas no Festival de Artes Cênicas, por exemplo, a Prefeitura, através do seu representante de cultura, sempre tratou o evento como algo inexistente.  A construção do Teatro Municipal da Cidade no local onde está, por exemplo, foi um erro que ninguém quer assumir. Nenhum governo, de situação ou oposição, tem políticas destinadas para ele.

DL – Em um período de orçamentos fragilizados em todas as esferas, como o corte de verbas impactou no setor cultural?

Vinícius – Em Itanhaém, para assistir teatro é preciso que circuitos culturais realizem apresentações e a Prefeitura apenas colabora com a energia elétrica, um banner e um fotógrafo. Nunca é um investimento da Cidade. Da terra arrasada para terra arrasada não sentimos tanto o impacto do corte de verbas públicas, mas em âmbito Estadual essa redução é visível. Quem contratava está chorando valores e os cachês estão baixando. A barganha comercial está apertada. Mesmo quando estava aquecido, a lógica do mercado sempre nos coloca como concorrentes. Com ele retraído a situação fica ainda pior e isso reflete evidentemente na qualidade estética dos espetáculos que são produzidos.

Caio – Como em nenhuma das esferas a cultura é vista como área estratégica para o desenvolvimento do País, Estado ou Município, existe uma legislação pérfida do corte de investimentos.  Podemos citar como exemplo o edital da Funarte publicado pelo Governo Federal em 2014 e que não foi pago até agora. Isso dá brecha para que o Estado também faça cortes dessa natureza e para que os Municípios obedeçam essa lógica. Passamos por uma fase difícil, pois os cortes do orçamento da cultura estão sendo graduais nos últimos anos. Nosso trabalho é desconstruir essa lógica macro a partir do que realizamos na Cidade, provando que a cultura é importante e consegue refletir o momento que a gente vive.

DL – Em sua essência, o teatro é um ato político. Qual o papel que a arte desempenha hoje em meio ao momento instável que o País está vivendo?

Caio – O teatro é o contraponto. Ele é o que pode tirar as pessoas de uma referência cultural do ponto  de vista simbólico hegemônico, contra os preceitos da luta popular e carregada de ideologia da classe dominante. Essa arte popular – mais artesanal e sem fundo mercadológico – tem uma liberdade maior de cumprir essa função. De pensar o mundo, refletir o passado e tentar, a partir da interlocução com o seu público, apontar o futuro. O teatro deixou de ser a arte da representação e passou a encarar uma função de fazer a interpretação do mundo. Essa interpretação pressupõe que o artista pense o mundo e esse pensar estará implícito em sua estética. E em meio a um mundo muito individualista, acredito que o teatro pode ser um canal importante para a Cidade e para que as pessoas possam dividir uma mesma experiência.

Vinícius – Podemos tomar como exemplo o maior clichê da música popular brasileira: o amor. Não existe no dicionário uma explicação conclusiva para o amor. Os sentimentos não possuem definição explicativa na gramática. Aprende-se o que é amor em função da cultura e das obras artísticas. Cada verso e música que fale de amor fala de uma interpretação distinta de um mesmo sentimento. O papel do artista é viver um amor diferente para produzir uma arte que reflita isso. Batalhamos todo dia para que a palavra amor, na cultura, tenha um significado revolucionário e não banal. Que ela seja preenchida da luta por um futuro onde amor seja realmente um sentimento de uma liberdade enorme. A maneira como você vê o mundo aparece na sua arte. Não é só quando você faz uma cena com um teor político que você está falando de política. No teatro, você está fazendo política o tempo inteiro.

DL – Vocês citaram que a maneira como o  ator enxerga o mundo reflete na arte que é produzida por ele. Nesse contexto, até que ponto é possível separar a representação política de uma arte panfletária e ideológica?

Caio – Vivemos uma cultura de panfleto o tempo inteiro. Mas apenas a arte pública é tachada de panfletária quando não é hegemônica e causa estranhamento ao senso comum. Sou contrário à essa definição, pois ela parte do princípio de que a arte tem um caráter totalitário. Se for uma arte totalitária já não é arte. Toda arte é permeável ao seu interlocutor. Desde um quadro até uma peça, ambos devem ser passíveis de interlocução. Quanto mais o artista se insere na sociedade, mais consegue fazer o seu trabalho ser menos panfletário, por assim dizer, e mais humano. Lembrando que tudo o que é humano é cheio de contradições e paradoxos. E é isso o que torna a arte viva.

Vinícius – O grande problema é que muitas vezes o artista decide expressar uma posição política usando o palco para fazer uma explicação. Nesse caso, deixou de ser arte antes mesmo de ser panfletário. O panfleto é algo que tem tópicos e é imediato. A arte é política quando trabalha na desconstrução de símbolos. Isso é abrir uma janela para alma humana e alcançar o pensamento pela via da emoção. A grande questão é que quando falamos de dilemas sociais não é um panfleto. Estamos lidando com um aspecto que está incrustado no sentimento do povo. E na praça isso é mais evidente. Quando o artista está disposto a explorar e aprofundar a relação sobre esses dilemas, não é preciso parar a apresentação para explicar nada. E nem por isso deixa de ser um ato político.

DL – Nos últimos meses assistimos a união entre a classe artística da Baixada Santista em prol da manutenção da Cadeia Velha como espaço plural de artes. Qual a importância dessa união para a conquista de objetivos mais sólidos para a cultura na Baixada Santista?

Vinícius – A frequência na luta por políticas públicas se torna uma referência. Respeito de verdade quem dedica sua vida para construir e criar produtos para o coletivo. Aqui em Santos há grupos que trabalham para a construção de um patrimônio coletivo que se reflete em cultura para o povo. Hoje, na Baixada Santista há um conjunto de artistas dispostos a produzir para o público e não usar essa luta para construir um patrimônio para si. Existem vários motivos para se unir. A união por uma causa nobre é digna.

Caio – Essa construção que está sendo feita de muitos artistas que estão doando seu tempo para poder pensar juntos assuntos pontuais de interesse coletivo e também a construção de políticas públicas talvez seja a única maneira de fazer uma interlocução com todos os problemas que a área cultural tpossui. Não é um problema de militância ideológica ou partidária. Essa é uma questão de sobrevivência.

Alessandro – Eu sou um resultado da Cadeia Velha e passei a minha vida ali dentro. Ela sempre teve um papel muito importante de aglutinar e organizar o movimento cultural de todo o Litoral. Esse movimento que se uniu para que a Cadeia continuasse a cumprir seu papel, reflete o espírito dela. Ainda existe a possibilidade de uma organização real para que todos possamos caminhar juntos e, consequentemente, chegarmos mais longe.