O gesto é de puro carinho. Nunca mais você poderá ver ou tocar naquela pessoa tão querida na sua vida. Então, sem saber dos riscos, você acaba beijando a testa ou a bochecha dela durante o velório. E é aí que grandes males colocam a sua saúde em perigo.
Entre produtos químicos potentes e a biologia natural do pós-morte, o “último adeus” físico exige cautela.
O ‘veneno’ na pele
A maioria dos corpos preparados para cerimônias de despedida passa pela tanatopraxia. Esse processo utiliza fluidos conservantes à base de formaldeído (o popular formol).
O problema é que o formol não desaparece. Ele permanece na superfície da pele e é altamente irritante. Ao beijar a testa ou o rosto do falecido, seus lábios entram em contato direto com uma substância classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como cancerígena e corrosiva, podendo causar reações alérgicas e queimaduras químicas imediatas.
A ‘explosão’ de bactérias
Assim que a vida cessa, o sistema imunológico para de trabalhar. Isso dá início à tanatomicrobiota — um fenômeno onde bactérias do próprio corpo (e outras externas) começam a se proliferar em uma velocidade impressionante.
Mesmo com a higienização feita pela funerária, micro-organismos e patógenos resistentes podem migrar para a superfície da pele. Em casos de doenças infecciosas não diagnosticadas, o contato direto com mucosas ou secreções imperceptíveis no rosto do falecido torna-se uma via de transmissão biológica perigosa.
O choque sensorial e o luto
Além da ciência biológica, existe o fator psicológico. O corpo humano, após a morte, perde sua temperatura e elasticidade natural (rigidez cadavérica).
Muitas vezes, o toque labial nessa pele fria e endurecida gera uma memória sensorial traumática. Em vez de guardar a lembrança da pessoa amada com vida e calor, o cérebro registra a sensação de “objeto frio”, o que pode dificultar o processo saudável de aceitação da perda.
Como se despedir com segurança?
Se a necessidade de contato for grande, especialistas sugerem:
- Toque nas mãos: É uma área menos sensível e com menor exposição a fluidos do que o rosto.
- Gestos simbólicos: Colocar uma flor, uma carta ou apenas manter a mão próxima sem pressionar a pele.
- Higiene imediata: Se houver contato, lave a região com água e sabão o quanto antes.
Fontes científicas e normas técnicas pesquisadas:
ANVISA: Resolução RDC nº 33/2011 (Dispõe sobre o controle e fiscalização sanitária do traslado de restos mortais humanos).
IARC/OMS: Monografia sobre o Formaldeído (Classificação como carcinógeno do Grupo 1).
Frontiers in Microbiology: Estudos sobre a sucessão da tanatomicrobiota no corpo humano.
FISPQ (Ficha de Segurança): Protocolos de segurança química para manuseio de fluidos de embalsamamento.
